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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

FLIQ NATAL 2012: a parte sobre os quadrinhos

Foto: Assessoria

Os eventos de quadrinhos no Brasil têm crescido bastante nos últimos anos, contudo, boa parte deles se concentram no eixo Sul-Sudeste. Aqui no Nordeste eles ainda são poucos, mas começam a surgir. Um bom exemplo é a Feira de Literatura e Quadrinhos de Natal/RN, que aconteceu entre os dias 23 e 26 de outubro, nas dependências da UFRN (sim, estou atrasado).




Organizada pelo Instituto Cultural e Audiovisual Potiguar, A FLIQ teve esse ano sua segunda edição, ampliando-se e trazendo convidados diversos. Ela é em grande parte voltada de fato para a literatura, pode-se perceber bem isso com o numero de stands para livros e só 1 para quadrinhos – inclusive de produtores locais, a única editora com stand próprio era a abril, e não vendiam nada, só assinaturas, o que acho uma tremenda burrice.

Mesmo assim, o evento teve boas palestras sobre a nona arte e lançamentos de obras. Entre os convidados desse ano o editor da Mauricio de Sousa Produções, do Universo HQ e “arroz de festa”, Sidney Gusman, o bahiano Flávio Luiz, autor de Aú, o capoeirista, O Cabra, Jayne Mastodonte e Rota 66; Gustavo Duarte (CÓ!, Taxi, Birds e Monstros); Henrique Magalhães, criador da personagem de tiras Maria e da editora independente Marca de Fantasia; Mauricio Ricardo, cartunista, animador e criador do site Charges.com.br

Pavilhão do evento

Dos quatro dias do Fliq acompanhei uma parte do primeiro dia, o segundo e terceiro dia, e devo dizer que apesar de pequeno o espaço estrutural para a feira – devo realçar que ela ocorre integrada a Cientec (Semana de Ciência  Tecnologia e Cultura) da Universidade Federal – foram bem produtivas as discussões e bem receptivas as pessoas participantes da organização.

No primeiro dia me deparei com uma palestra sobre Boards Games, o que na minha época de infante era chamado de Jogos de Tabuleiro. Após ela o desenhista e roteirista Flávio Luiz falou sobre o seu processo de criação de personagens, e assim, como o Gustavo Duarte que também palestrou sobre o mesmo tema, foi bem interessante ver como pensa a mente de um desenhista na hora de criar algo. Os dois foram os participantes também da mesa Não perca a piada: fazendo quadrinhos de humor.

Gustavo Duarte (Foto: Assessoria)
O Gustavo, que é chargista e recentemente foi despedido pelos imbecis (ele mesmo disse isso) do jornal O Lance, ressaltou as dificuldades que os chargistas tem dentro dos jornais. Segundo ele, os editores não procuram conhecer sobre charges, HQs, caricatura, ilustração, para eles é tudo a mesma coisa e são fáceis e rápidas de se fazer. Ponto que ampliou para todo fazer jornalístico, onde, em sua opinião, a pouca curiosidade e vontade de aumentar conhecimentos. “O jornalista está matando o jornalismo”, encerrou.

Outro ponto debatido pelos dois autores, foi os tais editais de incentivo a cultura, que tem nos últimos anos dado espaço para produtores de quadrinhos mostrarem seus trabalhos. Foi consenso no discurso tanto do Flávio quanto do Gustavo que o problema está em quem são colocados para avaliação das propostas, os jurados, que muitas vezes não conhecem de quadrinhos, nem do mercado dele, e barram boas propostas até. Flávio Luis conta que o analista da lei de incentivo na Bahia não aprovou seu projeto porque seu nome aparecia demais, isto é, ele era o roteirista, desenhista, assessor de imprensa, etc., alegando que o “Mauricio de Sousa faz tudo sozinho”.

Sidney Gusman, o Sidão.
Falou de Mauricio de Sousa, não tem como ir direto para a palestra promovida pelo Sidney Gusman – que agora pude tirar a prova do que sempre falavam dele: um cara muito simpático, acessível e gente fina. Intitulada O Universo dos Quadrinhos, a mesa falou de sua experiência jornalística a frente do Universo HQ e como editor do selo MSP.

Entre os pontos abordados, ele falou da aventura que foi iniciar como auxiliar no site UHQ, e a montagem de equipe quando os acessos e a “chamada as armas” surgiram. Mas, antes disso, contou sua entrada no jornal O Globo fazendo matérias sobre música, tentando interligá-la aos quadrinhos, enquanto até trabalhou de graça (algo que, infelizmente, é bem comum no inicio de carreira de qualquer jornalista).

Mas, o que me chamou mesmo a atenção nas falas do Sidão, mostrando sua trajetória até o Mauricio de Sousa e se tornar editor lá, é que ele sempre foi de fato um apaixonado pelos quadrinhos. Acumulou ao longo de anos e anos muita experiência para saber os melhores caminhos e, para mim, mostra como é importante um editor ter visão “além do alcance”, pensar grande e se preocupar com formação de público.


Eu e o Sidão, vestido de "Laranja Mecânica" Holandesa
Ele diz que logo ao entrar na empresas do Mauricio, propôs a criação de bonecos gogos (cabeças grandes em corpos pequenos) e outros produtos para fortalecer a marca na mente dos consumidores – sendo muitas vezes desmerecido por pessoas do próprio marketing da Panini, editora que abriga as revistas da MSP.

Aliás, eu sempre admirei o Sidney por seu tino marqueteiro, quem o acompanha nas redes sociais pode ver bem como ele sabe usar essas novas mídias para trabalhar os produtos que vende. Mas, ao mesmo tempo, não parece ser alguém que se vende tanto. Para quem vive no meio, diz ter duas graphic novels na gaveta que nem sabe se saírão de lá um dia, e pouco fala sobre seu roteiro que saiu em uma das edições em homenagem aos 50 anos de Mauricio de Sousa.

Gusman ainda falou sobre a importância da Turma da Monica Jovem como forma de manter o leitor dentro do mercado, um jeito de ser transição entre o infantil para o adulto. O editor terminou a conversa fazendo uma convocação ao público: “dê um quadrinho de presente para quem não lê!”, declarou.

Mesa "Independencia é vida!"
Na programação ainda pude ver a mesa redonda “independência é vida!”, com Henrique Magalhães, Flávio Luiz, e a equipe local da K-Ótica, coletivo produtor de quadrinhos de terror. A conversa girou em torno não só das dificuldades de produção independente no país, mas também de como esse tipo de produção é criativa por conta de estar livre das amarras do “mainstream”, e como o próprio mercado começou aos poucos se apropriar dos artistas e temáticas do universo independente.

O último bate papo que acompanhei foi a homenagem ao grande estudioso dos quadrinhos no Brasil, Moacy Cirne. Além dos professores José Verissimo e Henrique Magalhães, estava falando sobre os contatos e importância de Cirne, Sidney Gusman.

Eu não conhecia pessoalmente o Moacy, mesmo tendo lido várias obras dele e ele tendo sido o primeiro autor que falava sobre quadrinhos que comprei, com o livro Quadrinhos, Sedução e Paixão. O senhor já de idade avançada, saúde não tão boa, de cabelos brancos, fala mansa e com aquela conhecida, divertida, e viva memória não linear, contou “causos” de sua vida como jornalista e como acadêmico.

Da esquerda para direita: Moacy Cirne, José Veríssimo, Sidney Gusman e Henrique Magalhães

Nascido em Caicó, interior do Rio Grande do Norte, formado professor no Rio de Janeiro, Cirne lembrou os tempos de criança quando aprendeu a ler com os quadrinhos, a mudança para o Sudeste, quando se desfez de toda sua coleção e da entrada na editora Vozes.

Porém, antes desse momento, aconteceu um ato de repúdio a Fundação José Augusto pelo não repasse do dinheiro respectivo ao Prêmio Moacy Cirne de Quadrinhos, que teve acordo feito, resultado divulgado há quatro anos e até o momento nenhuma liberação.

Foto: Assessoria
Por fim, pude comprar e ter os autógrafos nas edições de Monstros, de Gustavo Duarte, e O Cabra, de Flávio Luiz. Encerrando minha ida a FLIQ desse ano. 


Foto: Assessoria
Como analise do que vi, achei muito bom dentro das condições de estrutura, financeira e culturais que se tinha e se tem na cidade. Espero que o evento cresça, e de preferência consiga sair da Cientec, tornando -sealgo mais independente. Infelizmente, sabemos que tal passo é complicado, visto o pouco interesse que normalmente governos municipais e estaduais, ainda mais aqui no Nordeste, tem nesse tipo de investimento, e nem falo do empresariado.

Se quiserem ver um pouco mais das palestras e mesas ocorridas, uma das organizadoras pôs em seu canal no youtube algumas gravações, só clicar aqui.

Mas, ainda não esgotei o assunto. Semana que vem trago para vocês a parte mais literária e cientifica do evento, relatando palestras com nomes como Xico Sá e Humberto Gessinger.

Fiquem com algumas imagens (os tradicionais cosplays) e até a semana que vem!



















quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quadrinhos: Reflexões sobre um meio




Estava pensando dia desses como é interessante a influência dos quadrinhos em nossa realidade através de símbolos e ideologias. Por exemplo, o caso da máscara do Guy Fawkes, que foi resgatada por Moore em V de Vingança, e se tornou, digamos, "pop" com o filme e agora é símbolo de organização de protesto como os Anonymous. Coisas dessa cultura tão interessante que são os quadrinhos.






Conversando dia desses com o nobre filosofo, e kinder ovo nas horas vagas, Rafael Rodrigues, debatíamos essa questão da influencia dos quadrinhos e reproduzo rapidamente aqui um trecho:


Rafael:  Pouca gente se dá conta de que os quadrinhos são um meio mais antigo que o cinema e a TV, e que algumas das fórmulas que conhecemos hoje desse meio vem diretamente dos comics.

Marcelo: Acredito que isso venha por influencia dos movimentos no meio do século passado que tinham o intuito de denegrir os quadrinhos, tanto se martelou que foi passando de geração em geração essa idéia de que HQ é algo menor em relação a outras midias. Claro que falo isso em um tom mais geral, de massas, não especialistas ou fãs, que veem obvio com outros olhos. Uma pena.

Alias, os quadrinhos (e muito por culpa das editoras Marvel e DC) perderam um bocado seu impacto no mundo pop, já que graphics novels (onde vemos coisas mais contundentes em critica e tal) ainda são bem restritas em termo de alcance de público, principalmente os leigos. Sem contar que eles não sabem bem trabalhar seus símbolos.

Rafael:  É, acho que o problema é que a decadência das formas de arte (no sentido delas terem se tornado puramente produtos e marcas) atingiu todos os meios, mas os quadrinhos ainda não tinham se reafirmado, então eles nem bem começaram a ganhar relevância e já se tornaram obsoletos.




Seguindo nesse pensamento, observamos que por essa ideia encrustada na mente de um senso comum de que quadrinhos não é tão relevante, muitas questões passaram pelo meu córtex cerebral:

O meio dos quadrinhos nacionais é muito perdido: não existem sindicatos ou agrupamentos para desenhistas e escritores (que eu saiba pelo menos), não existem fóruns ou grupos mais "profissionais" de discussão sobre o meio, não existe associação para brigar por mais espaço em verbas públicas, por exemplo. É bem como uma amigo diz: artista é muito criativo, mas em sua maioria não sabe gerenciar as coisas importantes. #temqueverissoai

Outra questão importante é o espaço dos quadrinhos nos jornais, nem em todos os centros urbanos temos uma relação de empresas jornalísticas com quadrinistas. Não sei os números certos, mas sei que a Folha de São Paulo tem uma sessão para tirinhas em quadrinhos, mas em pequenos centros, como a capitania hereditária que moro que é a Paraíba, normalmente se vê ou tiras clássicas como Peanuts ou não se tem nada.

Aqui, mesmo quando se tem não são tão interessantes. No passado já um tanto quanto longinguo, projetos de encartes especiais com histórias completas feitas por artistas locais chegaram a sair do papel, mas não continuaram logo após.

A experiência do Rafael Rodrigues no HQCX  me lembra o quanto é triste e dificil essa jornada do quadrinista em nosso país. E muito disso se inicia exatamente em não percebermos, ou darmos tanto importancia, a influencia e projeção que as obras em arte sequencial tem na nossa sociedade, deixando prevalecer a ilusão de que HQ é coisa infantil ou não tão interessante.

Será que um dia isso muda? E como é em sua região?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nyx


"Em um mundo jovem, ter poderes pode ser só mais um problema"



Quando os X-Men surgiram nos anos 60 o público primordial das histórias em quadrinhos eram adolescentes, que passavam mais parte do seu tempo buscando se afirmar socialmente, encontrar um lugar para si no mundo e lidar com a repressão de pais, escola, sociedade em geral. Como já dito por mim antes, isso mudou um pouco atualmente, quando o público de quadrinhos envelheceu e não tem tanta renovação como se deveria para manter esse foco. Por isso, acho de extrema importância histórias que busquem ainda falar diretamente para os jovens que ainda não são adultos e nem são mais crianças.


NYX é uma minissérie lançada originalmente em sete edições pela Marvel Comics entre 2003 e 2005 - no Brasil, foi publicada pela Panini Comics em uma edição especial, em 2006. Escrita por Joe Quesada, hoje editor-chefe da Marvel, e desenhada por Joshua Middleton e Rob Teranishi, a história conta a vida de um grupo de adolescentes pertencentes à classe pobre de Nova York. Esses jovens, que já possuíam vidas problemáticas (problemas familiares, desajuste social, falta de dinheiro), veem sua frágil estabilidade desabar, quando seus poderes mutantes afloram, tendo que fugir de casa e sobreviver nas ruas, sem nenhuma orientação ou apoio.

Apesar de a revista ter seus momentos “super-herói”, com batalhas, mudanças de rumo drásticos do nada, seu mérito é discutir de forma bem feita, clara e sensível ao mesmo tempo. Trazendo a tona problemas e dilemas típicos da adolescência, ainda mais que se foca em personagens femininas – normalmente deixadas de lado nesse gênero ou só utilizadas como objeto sexual.


As principais personagens são Kiden Nixon, jovem de 16 anos moradora da Cidade Alfabeto, em Nova York, cuja família entra em colapso quando seu pai, que era policial, é assassinado. Kiden vê nas drogas e nas festas a fuga de seu mundo. Porém, quando entra em conflito com uma das gangs de sua escola, seus poderes mutantes se ativam.. Tatiana Caban é uma jovem negra do Bronx que apesar de ser pobre encara a vida com otimismo. Ignorada pela mãe, ela oferece sua grande afeição a animais de rua, cuidando de gatos, cachorros e pássaros.

E em sua primeira aparição nos quadrinhos, temos a X-23, sem lembranças de seu passado ela é explorada por um cafetão (de nome Papai Zebra) como prostituta "dominatrix", utilizando suas garras em clientes masoquistas. O elenco feminino se encerra com Cameron Palmer, professora do colégio em que Kiden estuda Participa ainda Bobby Soul, um mutante com a habilidade de projetar sua forma astral e tomar o controle do corpo de outras pessoas.



A minissérie aos poucos vai mostrando a vida de cada um dos personagens e levando-os a se reunirem para conseguir sobreviver ao ataque de gangues e ao preconceito contra os mutantes. O trabalho do Quesada não é fantástico, nem muda toda a concepção sobre quadrinhos, mas é interessante e importante por trazer outro olhar sobre a vida adolescente em um mundo mutante, ponto que sempre acho mais interessante para pegar novos leitores do que o lugar comum de heróis adultos com temáticas longe da realidade adolescente.

Depois de três anos do lançamento de NYX volume 1, a Marvel Comics voltou a lidar com os adolescentes mutantes em uma nova minissérie em seis edições. Dessa vez, a romancista Marjorie Liu assumiu o roteiro e os desenhos ficaram por conta de Kalman Andrasokszky.

Seja n Marvel, DC Comics ou produções independentes, o mercado de quadrinhos de super-heróis é muito carente de histórias efetivamente feita para adolescentes. Há tempos um Homem-Aranha não tem mais essa pegada, muito menos os Novos Titãs, símbolos durante décadas de uma conexão com o público adolescente dos comics. Falar que o público envelheceu, que só trintões e coroas leem HQs, e são chatos, conservadores, presos em formulas, já é lugar comum.

Em um mundo onde jovens vivem conectados a internet, usando todo tipo de jogos de videogames, não acho que seja o caminho dos quadrinhos se perderem entre sagas de pura porradaria, trazendo o maledito anos 90 de volta. Muita coisa ainda tem para ser explorado para esse filão de audiencia. Nyx pode não ser a perfeição, o caminho totalmente certo, afinal, tem seus clichês também, mas é um bom caminho - ainda mais por também trazer o público feminino.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Beijo Adolescente: Primeira Temporada

"Dizem que a adolescência é a melhor fase da vida, 
mas ninguém explica o que acontece quando ela acaba" 



Em 2011 o portal IG lançou o projeto IG Quadrinhos, uma junção de trabalhos de artistas brasileiros variados, de temas distintos, em formato webcomic e algumas até tomaram forma impressa. Entre as obras, uma me chamou muito a atenção, tanto por explorar de forma inteligente e bem interessante a adolescência quanto por seu lado gráfico que, pra mim, é muito belo. A obra é O Beijo Adolescente, e o artista Rafael Coutinho.

A sinopse da revista já deixa bem claro que aquela é a história sobre o começo do fim do Beijo Adolescente, um grupo formado por jovens até dezoito anos que da noite pro dia se viram com poderes fantásticos após darem seu primeiro beijo. 


Invocando uma óbvia, mas nem tanto, alusão aos X-Men, Coutinho nos trás personagens fascinantes como o garoto de 12 anos Ariel, que percebe que seu vômito parece um arco-íris saindo de sua boca, ou as gêmeas da gangue das Gatinhas, incumbidas de protegê-lo, ou ainda Tomás, o descobridor de talentos, o garoto de 17 anos que vê as cores vivas da adolescência desaparecendo de si. Ainda nos deparamos com o Palhaço, um empresário em luta para manter o controle dos negócios, ainda mais quando um monstro que ninguém nunca viu começa a desaparecer com os membros do Beijo.

A obra é, em minha opinião, uma das melhores coisas que apareceram nos quadrinhos brasileiros nos últimos anos, de uma sensibilidade, beleza, mas que não deixa a ação, a reflexão e uma boa retratação da juventude urbana brasileira - apesar de não se prender em uma identificação explicita de onde se passa a história. Focando sua visão no universo adolescente, o autor não só desenha jovens mais próximos de como de fato são (afinal, nem todo garoto é superforte), além de trazer a tona temas bem da juventude contemporânea como  um mundo feito para e por jovens, adolescentes milionários, ritmo de vida e de consumo intensos.


Caracterizando seus personagens muito bem, tanto individualmente quanto as tribos juvenis - com visuais e comportamento distintos - dando bom ritmo e suspense a história, Rafael Coutinho cria um trabalho impar que dialogo muito bem com seu público, trazendo reflexões sobre o fim da adolescência, aquele tempo onde tudo é possível, o que se importa é viver no máximo e as preocupações com o futuro sempre ficam para o amanhã.



Agora, o autor está em busca de captação de recursos para a segunda temporada de O Beijo Adolescente, utilizando os recursos do Catarse - site de captação via apoio público. Confira o video de apresentação do projeto.




No vídeo o Coutinho fala que são 3 meses para captar os recursos, mas ele mesmo se corrige no site dizendo que são 2 meses na verdade. Para apoiar o Projeto clique aqui.

O primeiro volume da saga juvenil tem seus poréns também, claro. Apesar da edição ser bonita, o álbum tem um formato um pouco inadequado (25 x 40 cm), que dificulta ser guardado  e transportado. Além disso, falta um texto com mais informações sobre  projeto do Portal Ig Quadrinhos - de onde se originou - e do universo que a história trata, além de sobre o próprio autor.

Excetuando-se isso, O Beijo Adolescente é uma boa e divertida viagem ao mundo dos jovens de hoje em dia, com boas metáforas e narrativa, mostrando que mesmo ainda não firmado como mercado no Brasil, os quadrinhos tem muito o que mostrar de nossa realidade ainda, sem perder seu caráter de entretenimento.


O Beijo Adolescente - Primeira Temporada
Editora: Cachalote - Edição especial
Autor: Rafael Coutinho (roteiro e arte)
Preço: R$ 25,00
Número de páginas: 32

quinta-feira, 15 de março de 2012

Bem Vindo ao Distrito X



Imagine-se sendo um policial em uma Nova York repleta de criminosos e problemas dos mais diversos todo dia. Agora imagine isso tudo acrescentado de uma população com poderes sobrehumanos, situações das muito perigosas e você ainda não sendo completamente feliz em sua própria família. Essa é a vida do policial Ismael Ortega no Distrito X.




Relendo algumas HQs de meu acervo, me deparei com essa obra lançada em 2006 e que saiu aqui no Brasil na famigerada linha Pocket Panini - uma tentativa escrota de formatinho mal elaborado. Com algumas tramas paralelas e uma narrativa atrativa do escritor David Hine (Spawn), a HQ derivada do universo mutante da Marvel trouxe uma realidade longe do Instituto Xavier, dos colantes e milhares de formações de equipes mutunas, confrontando a relação dos humanos e mutantes. Uma relação explicitada na convivência do policial Ortega e o mutante Lucas Bishop.

Bishop é um personagem surrado no Universo X, primeiro um exilado do futuro no nosso tempo com a missão de impedir um futuro caótico; depois veio a Era do Apocalipse e ele se tornou um sobrevivente em um presente apocaliptico (não deu pra fugir do trocadilho pessoal).

Então veio o Massacre e acabou com todo o sentido de existência do personagem, mostrando que seu futuro era só mais uma realidade alternativa entre tantas outras, e agora? Devem ter se perguntado os editores da Marvel. Que fazemos com ele agora? Qual desgraça vamos inventar?

E então que ele surge em Assassinato na Mansão X (New X-Men de Grant Morrisson) como um Bishop policial do mundo mutante ao lado de Sábia. O conceito foi tão aprovado que o inseriram no Distrito X.

Após o parceiro de Ismael sofrer um contratempo e ficar inativo, Lucas assume seu lugar e passa a investigar problemas com uma droga mutante nova surgida nas ruas da cidade.

Ortega é um policial como todo outro, pai de dois filhos (uma menina e um garoto), casado com uma bela mulher e cumpridor do seu dever com a sociedade. Porém, nem tudo são flores num mundo onde você não pode dormir abraçado com sua esposa por causa do poder mutante dela, onde seu parceiro é controlado mentalmente e acaba cometendo duplo assassinato e onde você vive em um lugar do qual gostaria de saber só em notas de jornal.


Na minha opinião Distrito X tem um bom potencial para um seriado televisivo. O sistema de tramas paralelas, personagens interessantes a serem trabalhados gradativamente (como acontece na revista) e cenas de impacto são ingredientes primordiais de boas séries. Tendo seu primeiro arco (Sr. M) como plot da primeira temporada, bem no estilo HBO, com 10 episódios. Aqui deixarei minha idéia de como seria a sequência de episódios e acontecimentos.

Episódio 1- Bem vindo ao Distrito X: Logo no primeiro episódio nos seria mostrado o que aconteceu com o parceiro de Ismael, tendo um narração em off do policial., um pouco dos personagens principais e da trama principal

Episódio 2 - Uma Lenda Urbana: Vemos a história do garoto sapo, um mutante de onde é retirada uma toxina chamada Girinina, uma droga que causa eufória em quem a utiliza.


Episódio 3 - Um estranho no ninho: Conhecemos melhor a vida do policial Ismael Ortega, suas duvidas e preocupações dentro do caso que é a vida no Distrito X.


Episódio 4 - Verdades: A trama se desenvolve com a invasão ao QG produtor de Girinina, a distribuição da droga e um embate psicológico.





Episodio 5 - Deuses: A intervenção de Absolon na produção de Girinina.


Episodio 6 – Feito a vossa imagem: A história de Absolon e o uso da girinina nas ruas.


Episodio 7 - Efeitos: O inicio da guerra de gangues.


Episodio 8 - Conflitos: Encontro da policia com Absolon e a explosão da guerra de gangues.

Episodio 9 - A mão de Deus: A situação no Distrito X se complica e vidas são postas em risco.

Episódio 10 - A vida no Distrito X: Conclusão da temporada com o desfecho da história do Sr. M

Claro que aqui coloquei uma base de como seriam os episódios, sendo óbvio que ficaria mais detalhado dentro de uma hora de duração de cada um, deixando o final de temporada fechado caso a série não obtive-se exito e pensando em um retorno mostrando a história da vida de Luscas Bishop.

Esqueça viagens no tempo, na minha série Bishop seria filho de mutantes que viveram a vida inteira em Nova York até serem assassinados por anti-mutantes, e ele só despertaria os poderes já na policia, sendo desiguinado para o Distrito X por isso. E se vocês não tiveram paciência de ver todas as imagens podem baixar o arco aqui. Claro, que toda essa idéia poderia se perder se a produção não fosse de qualidade, como isso aqui:



Infelizmente, a série foi cancelada após o evento Dinastia M, onde durante a saga mostrava como era viver em um bairro humano, chamado Mutopia X, em um mundo totalmente mutante. Hoje em dia Bishop novamente foi relegado ao papel de messias do fim do mundo durante o Complexo de Messias - onde ele passa a caçar Hope Summers, a primeira mutante a nascer pós a Dinastia - e um grande potencial foi deixado de lado.

E você, gostaria de ver mais "versões teleseriadas" de histórias em quadrinhos? Deixe sua opinião nos comentários e até a próxima coluna (lembrando que o Irmão Olho agora é mensal).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Vingadores Secretos


Não é novidade o quanto nos últimos anos a Marvel Comics investiu pesado na construção de imagem de seu principal grupo de super-heróis, chamados como os “maiores heróis do mundo”, os Vingadores. Desde que o Brian Bendis asusmiu o roteiro dos Novos Vingadores muitas mudanças na equipe ocorreram, assim como o acréscimo de subequipes com o nome Avenger no seu título. Logo, uma versão agindo nas sombras, “enfrentando os desafios que ninguém sequer sabe da existência” apareceu com o nome de Vingadores Secretos.



Criada no inicio da chamada fase Era Heróica a equipe sob o comando do recém retornado do mundo dos mortos Capitão América, que agora se chamada somente Supersoldado, tinha os roteiros de Ed Brubaker e desenhos de Mike Deodato. Sua proposta era por em missões confidenciais heróis bem peculiariares como Máquina de Combate, Nova, Fera, Cavaleiro da Lua, Valquíria, Viuva Negra e o Homem-Formiga. Em quase dois anos de publicações o grupo já teve várias participações especiais, mudou de equipe criativa e chega no que considero seu auge nas mãos do mestre Warren Ellis.

Brubaker levou a revista em seu primeiro ano no sistema de arcos, sendo o primeiro Histórias Secretas, dividido em 4 partes. Nele os heróis se vêem a volta com uma tentativa de uma organização chamada Conselho das Sombras de reativar um artefato intitulado Coroa da Serpente, que por um acaso acaba dominando a mente de Nova. Enquanto isso um membro do Conselho ataca a base da equipe sob o comando de Max Fury, um antigo ser cibernético que acreditava ser de fato o chefe da SHIELD.

Em Olhos do Dragão, dividido em cinco partes, o autor já trabalha o personagem Shang-Chi e a tentativa de volta a vida de seu pai com a ajuda do Conselho das Sombras, plano frustrado pela equipe de Vingadores. Na edição 12 é quando Brubaker se despede da revista, trazendo à vida a história de John Steele, um antigo companheiro de segunda guerra de Steve Rogers que estava nas fileiras do Conselho das Sombras.

Particularmente, essa primeira fase da equipe é muito fraca, clichê e longe dos melhores trabalhos feitos pelo Brubaker – que tem nas fileiras dentro da própria Marvel o Capitão América que alçou o personagem novamente no gosto do público. Mas, provavelmente, ele assumiu o titulo só “por assumir”, isto é, querem que eu faça algo com o Capitão sem ele ser mais o Capitão, então vou fazer isso. Mas, digo que as histórias eram bem subaproveitadas por conta do que veio mais a frente.

Entre os número 13,14 e 15 quem assumiu o volante das histórias foi Nick Spencer, porém, nem se tem muito o que falar dessas edições pois se passam em paralelo com o “mega” evento do ano da editora que foi Fear it Self.  Logo, o autor mostra alguns personagens lidando com as conseqüências da saga, mas nada de nota relevante. 


A cereja do bolo, e o que pra mim justificou a existência do um ano e meio anterior de Vingadores Secretos, é a edição 16 até o momento. Nela Warren Ellis toma as rédeas do rumo da equipe e traz junto com ele a mesma pegada de ação, intriga e tensão de obras de agentes secretos como nós gostamos e como ele fez muito bem em Freqüência Global. Pra começo de conversa Ellis deixa de lado os arcos e passa a jogar os heróis escolhidos para cada missão em histórias fechadas, com situações das mais absurdas possíveis e repletas de ação.

Logo no primeiro número a frente o autor junta Steve Rogers com o Fera, Viúva Negra e o Cavaleiro da Lua numa base do Conselho das Sombras para resgatar uma antiga máquina do tempo de Victor Von Doom. Claro que eles são atacados e ai vemos a engenhosidade de Ellis em dar um bom espaço, e confiar na arte de Jamie Mckelvie, para a ação visual. Na edição 17, Rogers mais Sharon Carter, Maquina de Combate e Valkiria tem que parar um caminhão desgovernado que anda “sugando” pessoas para dentro de si. Na edição seguinte vão parar em uma base entre dimensões controlada por Arnin Zola, e por ai vai. Cada nova missão mais estranha que a anterior, sempre com o lema: cumpra a missão, não seja pego, salve o mundo.

Em pouco tempo Ellis conseguiu levantar substancialmente as vendas de Vingadores Secretos utilizando somente se sua bagagem de séries, filmes e quadrinhos de espionagem antigos – temos dos clichês básicos de situações impossíveis até as famosas bugigangas de espião feitas por um cientista da equipe – reforçado por diálogos bem elaborados e com uma pitada de humor, além do respeito e bom uso de cada herói escolhido para a missão. 


Assim, o que tinha se tornado só mais uma revista de super-heróis entre tantas, virou algo mais, além de um bom exemplo de como toda revista desse gênero deveria ser: divertida, dinâmica, que não nos chama-se de idiota e ainda tivesse bons personagens e drama desenvolvido. Bom, seria assim se todos autores de quadrinhos de super-heróis tivessem esse bom senso e qualidade, contudo, nem todo mundo é um Ellis.