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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Uaréview – Maus


Existem HQs e HQs. Algumas não fazem diferença nenhuma no mercado ou sequer na vida de alguém. Outras, por outro lado conseguem fazer essas duas coisas de forma bastante eficiente. É o caso de Maus - O diário de um sobrevivente, uma Hq biográfico-metalingúistica que fala dos horrores da guerra, do conflito de gerações, da difícil relação entre um pai e um filho, mostra os humanos como animais (em todos os sentidos) e traz um olhar mais profundo sobre as relações humanas e suas atitudes frente àquilo que não podem controlar.


Quando Marcelo Soares fez o post sobre Retalhos e os quadrinhos biográficos, lembrei que estava devendo essa resenha já fazia um tempo. Não o fiz, não por preguiça nem falta de tempo (embora estes fatores possam ter contribuído), mas sim porque fazer resenha para uma HQ como essa é uma grande responsabilidade.

Maus é uma HQ difícil de descrever. Assim como todas as obras que se tornam cânones dentro de um segmento específico, Maus funciona em tantos níveis quanto for possível para o leitor analisar, o que faz com que a obra tenha peso, mas também torna muito difícil uma análise imparcial.

Isso porque Maus trabalha com diversos temas, alguns óbvios, outros nem tanto, que tocam profundamente o leitor em algum momento (se não em todos). E, quando uma história chega nesse ponto, nós fomos capturados. E o envolvimento emocional dificulta a capacidade de julgamento. Mesmo assim, vou tentar ser o mais imparcial possível nesta resenha.

Maus é uma hq que, para ser bem analisada, precisa ser desconstruída para ser entendida. Então, vamos ao contexto histórico.

Art Spiegelman é um dos grandes quadrinistas do underground americano. Judeu, descendente de poloneses, teve pais que estiveram no centro da Segunda Guerra Mundial, mas nunca teve sequer um vislumbre do que foi este momento na vida deles, uma vez que nasceu muito tempo depois destes acontecimentos. Spiegelman sempre teve uma relação difícil com seu pai desde criança, o que piorou quando adulto, ainda mais quando sua mãe morreu. Mesmo tendo seu pai casado com outra mulher, nunca houve uma melhora e eles nunca tiveram um relacionamento que Art pudesse chamar de um relacionamento pai/filho.

Já que não chegou perto de conhecer os horrores da Guerra, Art Spiegelman decidiu escrever sobre o que seu pai havia passado durante o período, desde o início da Segunda Guerra até o fim, passando pelo turbulento período em Auschwitz. No entanto, conforme foi retratando o que seu pai contava, Spiegelman pôde também perceber que a difícil relação entre eles não poderia ficar de fora da história. Então decidiu que hq não seria sobre a história de seu pai, e sim sobre a história dele ouvindo a história do pai durante a Segunda Guerra, num contexto metalingüístico explorado de forma sutil na maior parte do tempo, mas ainda assim impossível de ser ignorada. Destaque para o momento em que Spiegelman se vê acuado pela grande receptividade do primeiro volume de sua HQ e o que isso provoca nele.

Outro ponto que merece destaque na criação da Graphic Novel é que, diferente do que poderia se imaginar em uma biografia, os personagens que vemos ali, apesar de homens, eram todos animais. Não (só) no sentido alegórico, mas também literal. Na HQ, cada “raça” era um animal diferente. Os poloneses foram retratados como porcos, os americanos como cães, uma cigana é desenhada como uma traça, os nazistas são gatos e os judeus, ratos. Essa antropomorfização na HQ toma um sentido muito mais profundo quando começamos a nos envolver na história e vamos percebendo as relações entre eles. Bem diferente da antropomorfização realizada pelos desenhos para atingir um público infantil, na obra de Spiegelman ela é usada para mostrar aquilo que nem sempre nós conseguimos perceber: Aquilo que somos, aquilo que achamos que somos ou aquilo que sentimos que somos em determinado momento. Aliás, os animais usados foram escolhidos não pelo que são realmente, mas pela idéia que nós, humanos, temos deles.

Pode-se pensar que fica mais fácil, ou mais tragável ler uma história sobre o holocausto com animais no lugar de pessoas, mas isso só deixa a narrativa ainda mais contundente e triste. O que vemos é uma história comovente, dura, cruel e humana, que nos faz refletir sobre palavras como sociedade, liberdade, crueldade. Humanidade. As sequências passadas na Segunda Guerra, apesar de muitas vezes omitir visualmente incidentes bastante violentos narrados pelo pai de Spiegelman, são fortes, tanto pelo contexto visual quanto pelo emocional. Em meio à isso, vamos aos poucos entendendo mais o complicado relacionamento entre Art Spiegelman e seu pai e vamos começando a conhecer ambos um pouco mais. A história também é bem detalhada, principalmente em sequências que mostram locais específicos, o que ajuda muito a entender como as coisas funcionavam naquela época.

O roteiro é sem rodeios; não existe romantização nenhuma dos eventos por parte do autor e nada que “amacie” a narrativa: a história começa do jeito que aconteceu, e termina do jeito que aconteceu. Mesmo com as típicas liberdades artísticas, a narrativa é bem crua, o que também vale para a arte. Os desenhos são bastante duros, frios, para não dizer insensíveis. Talvez isso tenha sido para contextualizar a forma como o autor imaginou a Guerra, como um evento frio e insensível. Mas eu acredito que o verdadeiro significado do estilo de arte tenha sido mesmo a influência do conturbado relacionamento entre pai e filho que, aos olhos de Spiegelman, sempre pareceu uma relação com as mesmas características da arte da hq.

Mas as coisas não são tão simples assim, nem as pessoas e é isso que Maus também nos mostra. Em meio a personagens bastante humanos e verossímeis, conforme lemos a hq ela vai se tornando cada vez mais algo muito maior do que uma simples história, e se torna quase uma parte da sua vida.

Talvez muitos de vocês não vejam Maus do jeito que eu vi. Eu fiquei pessoalmente envolvido com a história, pois minha relação com meu pai é muito parecida com a descrita na hq, então talvez eu tenha visto muito mais na história do que outros sequer verão. Independente disso, é uma HQ que vale a pena ser lida, afinal de contas, não é toda história em quadrinhos que ganha o Prêmio Pulitzer. Mas já aviso: A HQ é extensa, então talvez (bem provavelmente) os mais acostumados ao quadrinho massa veio com explosões e personagens anatomicamente (ou exageradamente) perfeitos possam se decepcionar, porque não há nada disso ali. Há apenas experiência de vida.

Maus pode ser encontrado nas livrarias numa antologia completa por R$ 45,50. Para os fãs de boas hqs, vale cada centavo.

Em tempo: “Maus”, em alemão significa “Ratos”.


Nota: 10

Rafael Rodrigues não passou pelos campos de concentração nazista, mas sabe como às vezes uma relação entre pai e filho pode ser difícil.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Histórias aos quadradinhos: quadrinhos em Portugal



Olá cambada, estou de volta ao convivio uareviano, esse lugar fedorento, porém aprovado no controle de qualidade (após um suborninho básico). Pois bem, como ainda estou em ritmo de férias vou só dar o famoso "Crtl C + Crtl V" em um texto bem legal publicado no Universo HQ pela Sonia M. Bibe Luyten, autora dos livros: O que é Histórias em Quadrinhos, Histórias em Quadrinhos - leitura crítica e Mangá, o poder dos quadrinhos japoneses. Nesse texto ela desbrava o, para nós brasileiros, misterioso mundo dos quadrinhos de Portugal, nossos colonizad... quer dizer, companheiros, irmãos de linguagem. Então fiquem com as sábias palavras dela. Semana que vem eu volto... ou não!


Portugal: das histórias aos quadradinhos às bandas desenhadas
Por Sonia M. Bibe Luyten
No Brasil, falamos o idioma português. Também herdamos boa parte da cultura que Portugal trouxe após o descobrimento. Mas, em matéria de histórias em quadrinhos... mal nos conhecemos. Os fãs de HQ sabem mais sobre o Yellow Kid do que a respeito das Aventuras Sentimentais e Dramáticas do Senhor Simplício Baptista, publicado em 1850, muito antes do seu par norte-americano, em 1896.

As histórias aos quadradinhos ou bandas desenhadas portuguesas possuem uma riqueza e abundância de histórias e autores e uma bibliografia especializada no assunto tão grande, que é de fazer inveja para qualquer um que se dedique ao assunto. Por isso, em dois (ou mais) capítulos vamos fazer o caminho inverso de Cabral e descobrir o que está por detrás do mundo lusitano das HQs.


Dos pioneiros de 1850 aos artistas maduros da década de 1940


A produção das histórias aos quadradinhos, como eram denominadas em Portugal em seu primeiro século de existência, começa em 1850, com a publicação da primeira história de Aventuras Sentimentaes e Dramáticas do Senhor Simplício Baptista, assinada por Flora, provavelmente o pseudônimo de Antônio Nogueira da Silva, um dos mais importantes caricaturistas desta época.

Esta história em seqüência de quatro vinhetas, ou em tiras de duas vinhetas, apareceu no número 18 da Revista Popular, no dia 3 de agosto de 1850, atingindo todos os requisitos para se considerar uma HQ.

No entanto, o maior artista gráfico português do século XIX e início do XX foi Raphael Bordallo Pinheiro (1846 - 1905). Ele pintou e bordou como ninguém em sua época. Chegou até a passar uma temporada no Brasil e, em 1875, tornou-se grande amigo de Angelo Agostini, o nosso grande pioneiro das HQs, com as Aventuras de Nhô Quim, em 1869.


Capa da edição fac-similada em comemoração
aos 150 anos do nascimento de Raphael Bordallo Pinheiro

Raphael Bordallo, além de ilustrações, caricaturas, desenhos e quadrinhos, tinha também uma fábrica de cerâmica e seus artefatos neste campo ficaram tão famosos quanto suas obras gráficas. Entre 1870 e 71, ele iniciou sua revolução na ilustração gráfica portuguesa nas revistas A Berlinda e O Binóculo.


Já em 1872, ele transpôs as fronteiras com seu álbum Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador Rasilb pela Europa. "Rasilb" é um anagrama de "Brasil" e o personagem principal era o próprio Imperador Dom Pedro II, que passou parte considerável de seu longo reinado viajando pelo mundo, o que o tornou um alvo de chacota do artista português, liberal e anti-monarquista.

Ao lado de Eça de Queirós, Raphael Bordallo Pinheiro foi uma das grandes figuras da famosa "Geração de Setenta" (anos 70 do século XIX), que é considerada a grande criadora de caricaturas nacionais. Da criatividade de Eça surgiu o famoso Conselheiro Acácio; e de Raphael, o Zé Povinho, criado nas páginas da revista Lanterna Mágica, em 1874, e que tornou-se o maior acontecimento de toda a produção satírica portuguesa.

O Zé Povinho, até hoje, é um personagem emblemático, uma representação simbólica - ainda que caricatural - da personalidade lusa, desde o século XIX até os dias atuais. Só a respeito de Raphael Bordallo, foram publicados inúmeros livros e artigos; e sua contribuição para as artes gráficas encanta até hoje. Os quadrinhos portugueses foram muito precoces também no segmento infantil, com publicações como O Amigo da Infância, editada pela Igreja Evangélica Portuguesa, de 1874 a 1840; e Recreio Infantil, de 1874 a 1876.

Outras revistas para crianças foram: Jornal da Infância (1883), O Gafanhoto (1903). Aliás, neste último caso, o personagem homônimo, que deu nome à revista, tornou-se o primeiro grande herói dos quadrinhos infantis portugueses.

Por outro lado, no mesmo período, também já apareciam quadrinhos eróticos como A Chacota (1882) e O Pimpão (1879). O período que vai de 1910 a 1940 é considerado a era artística do quadrinho português. Isso quer dizer que as produções do gênero eram fruto de um trabalho individual aprimorado. Como grande exemplo destes tempos, citamos Stuart Carvalhais (1887 - 1961). Ele é considerado o verdadeiro criador dos quadrinhos portugueses quando publica, em 1915, a história de Quim e Manecas, na revista Século Comico.

Tratam-se das peripécias de dois malandros, tipicamente anarquistas juvenis; e seu aparecimento coincide com a mudança política do autor, quando abandona seus ideais monarquistas e passa a apoiar a república. Stuart Carvalhais era polivalente. Trabalhou em todos os setores de artes gráficas e, na área de quadrinhos, em praticamente todas as revistas e jornais de sua época.

Na década de 1920, aparece uma revista decisiva no cenário português, o ABC-zinho. Lançada por Stuart Carvalhais, contou com a preciosa colaboração de Cotinelli Telmo (1897 - 1948) e virou uma referência obrigatória para todos os que se interessam pelo quadrinho lusitano. Ainda mais influente do que o ABC-zinho foi O Mosquito, criado em 1936, e que durou até 1977. Nesta revista colaborou uma plêiade de grandes artistas, como Eduardo Teixeira Coelho (E.T.Coelho), José Garcez e Jayme Cortez.

A vez do público juvenil

O sucesso da revista infantil ABC-zinho fez ver aos editores a viabilidade de uma imprensa periódica juvenil. E, entre as décadas de 1920 e 1930, inúmeros títulos, uns duradouros, outros não, chegavam às mãos da moçada lusitana. Revistas como O Carlitos, O Senhor Doutor, e suplementos encartados nos jornais como Có-Có-Ró-Có (do Diário de Notícias) e Tic-Tac, eram publicadas em diversas cidades de Portugal, trazendo os maiores desenhistas deste período.

Além disso, nos anos compreendidos entre as duas Grandes Guerras, os próprios portugueses diziam que houve tanta proliferação de revistas humorísticas, quanto o número de tendências e partidos políticos. Na década de 1930, aparece a revista O Papagaio, da imprensa católica infantil, por onde passaram outros bons nomes do desenho, como Tom (um carioca que imigrou para Portugal aos 20 anos), José de Lemos, Júlio Resende, Arcindo Madeira e muitos outros.

Houve ainda dois acontecimentos que fizeram com que a produção de quadrinhos portugueses tomasse um rumo ainda mais firme. O primeiro foi durante a Segunda Guerra Mundial, na qual Portugal manteve neutralidade absoluta, mas proibiu a publicação de quadrinhos estrangeiros. Desta maneira, o país se manteve livre da avassaladora influência norte-americana, o que motivou o aparecimento de novos artistas e séries e difundiram hábitos de leitura.

Logo depois da vitória dos aliados, com o fortalecimento da ditadura salazarista, aprovou-se uma lei exigindo que 75% das histórias em quadrinhos publicadas fossem de origem portuguesa. Dessa maneira, não é preciso perguntar por que as histórias aos quadradinhos tiveram tanta força em Portugal, apesar da censura. Aliás, sabemos nós, aqui no Brasil, que a censura política aguça ainda mais o espírito criador dos artistas.

Mas nem todos os desenhistas sentiam-se muito felizes com o regime ditatorial, e um dos mais importantes deles, Jayme Cortez, resolveu imigrar para o Brasil, em 1947. Aqui, ele se tornou um grande mestre para muitos artistas brasileiros e trabalhou em diversos órgãos, além de dar assistência para jovens da época como Mauricio de Sousa.


Capa do álbum Aventuras de Manecas e Joao Manuel.
Sobre a exposição da obra de Stuart Carvalhais

Juntamente com Jayme Cortez veremos um grupo de desenhistas como Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento, António Barata, José Rodrigues Neves, José Ruy, José Garcês e Vítor Péon, que consolidaram os quadrinhos em Portugal. O peso deles é tão forte, que a "Escola Portuguesa" das HQs começa aí.