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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Esperando o Superman (2010)

 
Heróis existem para nos salvar de problemas que não podemos dar conta sozinhos. No passado, em uma época mais ingênua, personagens como Superman traziam uma real esperança para milhões de crianças que assistiam seu programa de TV com George Reeves, e esperavam que ele surgi-se em seu socorro quando precisassem. Infelizmente, nosso mundo não conta com um Superman, e nossos problemas só nós mesmos podemos resolver. É sobre isso que o documentário Waiting for Superman nos fala, como só com conhecimento, luta e real interesse podemos melhorar a educação mundial. 

Em um mundo de estatísticas, números, planos que não dão em nada e discursos falidos, o documentarista Davis Guggenheim (Uma Verdade Inconveniente) nos lembra que todas essas estratégias educacionais na verdade têm nomes: Anthony, Francisco, Bianca, Daisy e Emily, cujas histórias são a base do documentário. Enquanto acompanha um grupo de crianças ávidas para estudar, colocadas dentro de um sistema que não estimula elas e seu desenvolvimento acadêmico, Guggenheim realiza uma análise exaustiva da educação pública nos EUA. 

Vemos nele como é engendrada a máquina administrativa educacional americana, desde o formato de entrada em escolas públicas, o ciclo feito por alunos a cada novo nível de uma escola para outra pré-determinada, as expectativas desses alunos, de seus pais, o histórico de sucesso ou não de formatos adotados por diferentes centros de ensino, como o governo tratou ao longo dos anos a questão, as brigas políticas entre órgãos (como sindicatos dos professores e diretores escolares), números, gráficos, depoimentos, enfim, é uma obra bem completa sobre o panorama de ensino naquele país.

Um dos pontos que mais gostei do filme é ele não apelar para a planfetagem, como é bem comum na obra de Michael Moore, por exemplo, e de uma forma bem coesa, de bom senso, mostra as interconexões existentes que fazem com que a situação esteja no caos e complexidade que está. Nele podemos ver como uma mãe mesmo lutando todo dia para pagar uma escola particular para sua filha, por acreditar que assim ela terá mais chances, não pode nem ver a sua garota na solenidade de colação de grau por atraso nas mensalidades; ou como um sistema de estabilidade para os professores os viciam em serem educadores medíocres, são tantas questões que faz você se perguntar: se nos Estados Unidos, um dos países mais ricos do mundo, a coisa está assim, o Brasil terá alguma chance de salvação? 

Mas, a coisa mais absurda desse sistema americano, e que nunca tinha ouvido falar e fiquei realmente chocado, é a formula realizada quando o número de alunos inscritos as vagas para uma escola pública supera o número de vagas: é realizado um sorteio público, com direito a bolinha, com números correspondentes a cada pretendente a vaga, dentro de uma redoma de onde ela é tirada. Isso mesmo, um bingo, a definição do futuro de uma pessoa feita em quanto de sorte ela está no dia. E você achando que vestibular é algo injusto hein?!

O filme recebeu o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Sundance em 2010 e merece ser visto com todo cuidado, ainda mais se você é alguém realmente preocupado com o futuro da educação no mundo e das crianças, que poderão ser seus filhos quem sabe.


Título Original: Waiting for Superman
Gênero: Drama / Educação / História Contemporânea
Duração: 111 min
Lançamento: 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

HQ´s, professores e um mundo fumegante


A escola constitui-se em um ambiente importante no processo de formação do jovem, não só no aspecto pedagógico, mas também do ponto de vista das relações sociais, políticas e culturais. É nela onde estabelecemos nossos primeiros contatos com teorias que dão sentido lógico a nossa condição socioeconômica e nossas formas de expressões culturais tão familiares e ao mesmo tempo pouco conhecidas.

Num país onde a educação permanece como uma das áreas mais fragilizadas, com investimentos insuficientes, inserida em um mercado capitalista preocupado com a geração de lucro, em que escolas têm estruturas precárias, com poucos recursos, falta de materiais de expediente e um corpo de agentes com uma qualificação minimamente adequada e atualizada, é necessário buscar alternativas para despertar o interesse dos alunos pela leitura. Entre outras providências didáticas, oferecer um texto atrativo (com temáticas interessantes e que sejam visualmente atraentes) contribui para que a criança ou o adolescente aprenda a transformar a leitura num hábito que vá além das obrigações escolares. 

As Histórias em Quadrinhos podem ser uma opção eficiente e de baixo custo para tal alternativa. A primeira vista, dizer que os quadrinhos funcionam na sala de aula pode parecer duvidoso, mas conhecer experiências que alguns professores têm obtido a partir dessa atividade pode fazer os céticos mudarem de idéia. Inclusive porque o aproveitamento didático-pedagógico das HQ’s em sala de aula é uma recomendação fixada pela LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação -, contemplada também nos PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais, que colocam que “devido a associarem imagem com texto, as HQs auxiliariam a aprendizagem ajudando a motivar a leitura e criatividade do aluno, além de servirem como recurso visual de apoio ao ensino de virtualmente qualquer disciplina”.

Sabemos que até décadas passadas as HQ´s eram vistas pelos educadores como uma subliteratura, sem muito caráter instrutivo, ou seja, só era considerada unicamente como uma forma de passatempo. Segundo a estudiosa Ângela Rama em seu livro Como usar as Histórias em Quadrinhos em sala de aula, o processo de introdução das HQ´s na aula demandou tempo e em muito resultou do próprio debate entre educadores sobre a introdução de novos elementos para a dinamização do ensino.

Espera-se que a escola ofereça bons modelos de leitura para o aluno, que permitam a melhoria do bom desempenho de seu papel social como educando e, ao mesmo tempo, ampliem as possibilidades de melhoria de sua inserção num mundo globalizado. É ela quem faz intervenções constantes em relação ao tipo, ritmo e intensidade de leitura dos alunos, chamando-os a assimilação de novos conteúdos didáticos ou, simplesmente, ao prazer que podem despertar. 

As HQ´s se num modelo atrativo de leitura pela sua particularidade de unir duas riquíssimas formas de expressão cultural: a literatura e as artes plásticas, se torna uma fonte importante de inspiração para as iniciativas didáticas. Há histórias em quadrinhos que pelo enredo, pela linguagem e pela qualidade das ilustrações, podem dar contribuições valiosas a uma leitura. É sabido que a produção de revistas em quadrinhos com conteúdos que abordam diretamente temas do currículo escolar ainda é muito limitada. Ou seja, apesar de ser consensual entre educadores a idéia das potencialidades das HQ’s, o mercado editorial não tem lançado um número significativo e diversificado desse tipo de revista – com perfil claramente pedagógico. 

Isso talvez explique porque as HQ´s são utilizadas de modo muito esporádico e restrito pelos professores. Além das temáticas livres escolhidas segundo o critério de vendas, há necessidade de publicações tratando de fundamentos das ciências (física, biologia, geografia, etc.) de história, e que tenham a mesma qualidade gráfica das HQ´s comerciais, a não segurança de retorno do capital investido na publicação desse último tipo possa explicar o porque da não existência de HQ´s puramente didáticas.

Exemplos de revistas que poderiam ser utilizadas didaticamente são:  na área de ciências podemos destacar a coleção História do Universo em Quadrinhos (Editora Xenon), de Larry Gonick, além da Editora Harbra que já lançou quatro volumes com o título geral Introdução Ilustrada à... sobre os temas Física e Genética. Deve-se aproveitar o pouco que se tem desse modelo de histórias e usá-los sabiamente dentro da sala de aula.

No livro História em Quadrinhos na Escola, Flávio Calazans analisa a riqueza informacional das HQ´s como uma das variantes da mídia, apresentando alguns exemplos de como elas podem ser utilizadas de forma didática em matérias da grade curricular. Ele aponta como exemplo seu uso no trabalho didático infantil, onde se pode utilizar de uma forma criativa, facilitando o aprendizado por parte da criança, fazendo uma ponte entre a obra apresentada e a disciplina a ser ensinada. 

Em História, por exemplo, Calazans mostra que se pode usar obras que retratem momentos históricos importantes tornando a aprendizagem, e o próprio conteúdo, algo mais atrativo. Além disso, o professor pode trazer personagens paralelos a fatos históricos, modos de vida ou pontos de vista diferentes diante do mesmo fato. Assim, há a possibilidade de despertar e aguçar na criança sua capacidade de raciocinar criticamente a partir de temas que abordem questões sociais. Na literatura, o uso como forma de discussão do caráter literário de uma HQ, além de adaptações de obras literárias fazendo-se uma comparação com a original (livro). Em relação à ortografia, uma forma é mostrar como ensinar regras práticas da língua portuguesa, coesão de texto, interpretação, variações lingüísticas, linguagem oral e escrita.

Na área da geografia, noções de cartografia, análise de paisagem e espaço geográfico, características e valores de outros países, a vida rural e urbana podem ser alguns dos usos da HQ. No mundo das artes, o aluno pode aprender e ser estimulado por uma variedade de autores e traços e conhecer a amplitude do uso dos quadrinhos desde os tempos antigos. Já os super-heróis, permitem abordagens de teorias científicas, como por exemplo, radioatividade criando mutações genéticas (X-Men, Hulk, Homem-Aranha), poderes pseudocientíficos como do Superman, emprego de tecnologias como no Homem de Ferro e Batman, estrutura atômica, química e anatomia com o Elektron e etc. 

Tantos exemplos mostram a variedade de uso possíveis das HQ´s como aporte educacional. Porém, uma coisa se torna necessária para que tal adendo ao ensino seja feito: o professor deve estar por dentro das possibilidades que as HQ’s trazem. Uma forma de suprir esse problema talvez seja um acompanhamento em relação aos professores, com uma capacitação maior de informação para integrá-lo com as HQ´s, podendo-se fazer cursos ou intervenções. Porém, para isso, seria importante um incentivo da escola, de grupos de alunos ou profissionais que tratem com os quadrinhos. Outro fator importante nessa equação é o papel da família no hábito de leitura do jovem, pois se estimulado em casa ele poderia levar para sua escola esse hábito e trazer a tona tal discussão.

Enfim, as histórias em quadrinhos têm muito que contribuir para o crescimento educacional de um jovem, ou mesmo adulto, sendo necessário por parte das escolas, professores, pais e governos, um olhar mais sensível para esse meio de comunicação, longe de preconceitos arcaicos e infantilizações,

Marcelo Soares é jornalista, estudioso dos quadrinhos e cinema, dirigiu e roteirizou o vídeo A Casa do Natal, roteirizou a história em quadrinhos A vida continua e tenta manter atualizados seus dois blogs: Caozcalmo e Dizforme.