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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Princesa Amazona – Final

No post anterior:
Foi um período conturbado para nossa heroína: Após ser substituída por Ártemis e retornar à posição de Mulher Maravilha, Diana acaba morta e substituída por sua mãe, Hipólita. Enquanto isso, alça a condição de Deusa da Verdade, ao que eventualmente desiste desta posição, voltando ao mundo dos vivos e retornando para o posto de Mulher Maravilha.



“Enquanto isso, na banda desenhada...” é uma seção que traça um paralelo entre o universo real e o mundo dos quadrinhos, analisando como as duas realidades afetam uma à outra, trazendo informação e estimulando a reflexão acerca dessa 8ª arte.


A mulher moderna dos novos tempos

A década de 00 trouxe novos desafios reais para os personagens DC. Dan Didio, que havia se tornado novo editor-chefe da editora, estava determinado a colocar a DC Comics novamente entre as primeiras posições de vendas (pois, nos últimos anos, perdia sempre para a Marvel). Sua estratégia incluiu colocar os personagens nos holofotes de forma impactante: Começou com a minissérie Crise de Identidade, que trouxe um lado mais sombrio dos heróis ao revelar o que eles tiveram que fazer para manter suas identidades secretas ao longo dos anos. Apesar da minissérie destacar principalmente heróis “menores” da editora, ela foi o início de uma longa sequência de tragédias que moldariam os personagens para o novo milênio.

Mais tarde, quando o vilão Maxwell Lord – que havia matado brutalmente o Besouro Azul – controla a mente do Superman para fazê-lo atacar o Batman, Diana acaba tendo que lutar com seu amigo e companheiro de batalhas a fim de tentar livrá-lo do controle do vilão. Vendo que a única forma de libertar o herói era atacando Lord, Diana não teve outra opção a não ser matar o vilão, quebrando seu pescoço.

A ação da heroína foi transmitida propositalmente em rede nacional para todas as TVs do mundo, o que trouxe além de muitos problemas para Mulher Maravilha e fez com que as pessoas perdessem a credibilidade na heroína. Além disso, junto com o ataque do Superman controlado à Batman, criou uma cisão entre os três que comprometeu a confiança e amizade que existia entre eles e que só seria retomada mais tarde.

Esta sequência de histórias levou à Crise Infinita, megassaga encarada como uma sequência de Crise nas Infinitas Terras, onde alguns heróis remanescentes da Crise estavam dispostos a destruir o universo DC para trazer o multiverso – que existia antes de crise – de volta, incluindo seus lares. Nesta história, um ataque de OMACs (nanorrobôs que usavam hospedeiros humanos para se tornarem poderosos e perigosos robôs guerreiros) à Ilha Paraíso fez com que Diana pedisse à Athena que interviesse, ao que a deusa remove a Ilha Paraíso inteira da Terra para outra dimensão; Diana decide ficar e lutar. Durante a saga, um novo multiverso é criado (mas isso só é revelado mais adiante, na saga 52), com um número limitado de terras e o universo DC passa por uma nova reformulação. O passado de Diana é novamente reescrito e ela volta a ter sido membro fundador da Liga da Justiça. A amizade entre a trindade (Superman, Batman e Mulher Maravilha) também é restaurada.

Nos eventos que se seguiram a Crise Infinita, Diana voltou a ter uma identidade secreta, dividindo seu tempo entre ser Mulher Maravilha e atuar como Diana Prince, uma agente do governo parte de uma divisão especializada em assuntos meta-humanos e parceira do agente Nêmesis. Essa fase contou com diversos autores e passou por diversos problemas, principalmente devido à saga O Ataque das Amazonas.

Capturada por um impostor se fazendo passar por seu superior – no departamento de operações meta-humanas – Diana acaba sendo torturada e presa. Hipólita, que nessa época estava morta, é ressuscitada pela vilã Circe por razões desconhecidas e ao ter conhecimento de que sua filha era cativa do governo, resolve levar as Amazonas para Washington a fim de atacar a casa branca. A história foi considerada tão ruim, que levou a uma grande polêmica dentro da editora, envolvendo imposições editoriais, saídas repentinas de autores e muitos boatos a cerca do que acontecia nos corredores da DC Comics durante este período.

Após esses eventos, seguiu-se Crise Final, onde Mulher Maravilha inexplicavelmente foi deixada de lado, aparecendo muito pouco na saga e tendo pouca participação no evento. Seguiu-se a isso uma fase muito elogiada escrita por Gail Simone, que trouxe novos personagens, novos vilões e deu um novo fôlego à heroína. Atualmente, Gail Simone deixou o cargo de roteirista para dar lugar à J. Michael Straczynski, que assumiu o título mudando o uniforme da amazona, modernizando-a e criando uma história alternativa onde a origem da personagem é diferente da que conhecemos (Veja uma análise da edição mais recente aqui). Porque estou com a impressão de que já vimos isso em algum lugar?


Acredito que a Mulher Maravilha seja uma personagem com muito potencial, mas como acontece com muitos heróis míticos (Superman é o melhor exemplo), necessita das pessoas certas para abordá-la. Infelizmente, isso levou a muitas histórias ruins e relegou a personagem a uma posição ingrata de “número 3”, quando devia, junto com Batman e Superman, ser considerada uma personagem icônica e parte da cultura mundial. De feminista à guerreira, passando por agente secreta, Diana já foi de tudo; esperamos que a partir de agora a DC Comics tenha consciência do que tem em mãos e dê valor para uma personagem que ainda tem tanto para dar (sem trocadilhos).


Epílogo: Curiosidades
- A história de “Amazons Attack” acarretou num fato curioso. Um fã ardoroso da Mulher Maravilha ficou tão ofendido com o arco de histórias que decidiu protestar simplesmente mandando todas as edições da saga que ele havia comprado de volta para o editor deste evento;
- O período em que Diana viveu como a agente Diana Prince pode ser considerado uma mistura da Mulher Maravilha Original com a fase dos anos 70 em que ela não tinha poderes.



A seguir: Meet the Beetles.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Plantão do Monitor: Mais um dia para Diana


[Monitor.jpg]
Bem,o Plantão do Monitor de hj será mais um review,especificamente da revista Wonder Woman #600 e das mudanças que ela trás para a personagem...

A revista começa com um belo texto escrito por Lynda Carter,que fez a personagem no classico seriado de TV.Depois começamos as historias muito bem acompanhados por George Perez e Gail Simone,onde trás varias heroinas do Universo DC salvando os homens da Casa Branca de serem mortos por sereias modernas,digamos assim,comandadas pelo Dr Ivo.Curto a Gail,mas não li o suficiente do material dela pra saber se todas as reclamações que fazem são de fato justas ou não(apesar de Guerra das Amazonas ser bem fraca).Mas dessa historia especificamente eu curti,mostra muito bem porque ela é uma personagem essencial dentro dos quadrinhos.Explicações mais profundas sobre isso no final.

Depois segue com uma historia desenhada e escrita por Amanda Conner(da revista da Poderosa)que mostra Diana e a Poderosa agindo simplesmente como amigas,resolvendo problemas que normalmente amigos fazem.Continuando com Firepower,escrito por Louise Simonson e desenhado por Eduardo Pansica serve para mostrar de certo modo porque ela está no mesmo nivel que Batman e seu companheiro de historia no caso,Superman.Pra finalizar temos ele,Geoff Jonhs com arte de Scott Kollings,na historia com fortes influências da fase de Perez "The Sensational Wonder Woman" que serve de preludio pra Odyssey,que é o principal tema dessa materia.

Sobre Odyssey,podemos dizer em resumo:A Mulé Magavilha que conhecemos estava agindo tranquilamente por aí,mas por algum motivo que ainda será explicado os Deuses mudaram o tempo cronologico,e assim mudando a historia de Themyscera.A ilha ficou exposta e exercitos do mundo e do sub-mundo foram guerrear contra as Amazonas.No fim das contas,muitas morreram,como por exemplo Hypolita e as outras sobreviventes fugiram levando com ela a jovem Diana.Anos depois,agindo como vigilante/sobrevivente,Diana se torna a Mulher Maravilha,e enquanto combate o crime nas grandes cidades,tenta descobrir como e porque os Deuses(e outras pessoas maléficas envolvidas) ousaram mexer no tempo e deixar as coisas como estão.

Bem,a cronologia da personagem foi modificada,mas a propria historia te avisa desde já que essa mudança será temporária.Em relação ao uniforme,realmente fica mais dinâmico pros tempos modernos.E nem chega a ser tão feio assim,mas pra mim ainda não substitui o classico.Em termos de tom me lembrou muito os filmes do Hellboy,em especial o Exercito Dourado,com o mundo considerado magico se escondendo quase como uma camuflagem dentro do mundo real.Mas se essa será uma mudança boa para a personagem ainda é cedo dizer.A primeira parte da historia te serve mais pra te situar aonde a personagem está,mas tá prometendo,por mais que lembre (bata na madeira 3 vez)One More Day (afinal,é o mesmo escritor).

No fim das contas o problema da Mulher Maravilha é o mesmo de alguns outros personagens da DC:grande potêncial,mas sem saber o que fazer com eles.Não acho que vai ser uma mudança de roupa que vai fazer a MM ser melhor,seja como personagem ou suas historias, bem vista entre o publico leitor normalmente masculino.Apesar de ainda não ter algo,seja dentro ou fora das Hqs,que representasse a força e importancia que a personagem tem de fato(o mais proximo que vi disso,alem da serie de TV,foi o filme animado da DC Universe,aquilo é bom bagarai!).Ela é o equilibrio entre a sombra(Batman) e a luz(Superman),ela é o exemplo a ser seguido como pessoa e heroina a outras mulheres,sejam elas superpoderosas ou não.Ela serve como simbolo e força mais equilibrado que Batman e Superman por ter as qualidades e defeios ambos,tornando de certo modo a mais humana entre o trio apesar de todo o misicismo que a envolve,sendo que com os caras é ao contrario,eles transcedem a ideia de ser uma pessoa pra ser um simbolo.

Assim como Lynda Carter,só existe uma Mulher Maravilha,apesar de todas as mudanças que ela pode sofrer.O importante não são bandeiras,ou mudanças de origem,ou até mesmo vendas,mas é qualidade.As histórias sendo boas,as pessoas irão comprar(ou pegar de scan ou download digital,etc).No fim das contas,a qualidade tem que prevalecer,seja a realidade que for.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Princesa Amazona – Parte 4

No post anterior:
De volta às suas origens, a Mulher Maravilha encontra um destino fatal nas mãos do Antimonitor em Crise Nas Infinitas Terras. No entanto, ao invés de morrer, a heroína retrocede no tempo, onde sua história pôde ser recontada de forma diferente, iniciando uma das fases mais celebradas da personagem.



“Enquanto isso, na banda desenhada...” é uma seção que traça um paralelo entre o universo real e o mundo dos quadrinhos, analisando como as duas realidades afetam uma à outra, trazendo informação e estimulando a reflexão acerca dessa 8ª arte.



As Mulheres Maravilha do passado, presente e futuro

Nos anos 90, com o advento da Image Comics – que traziam heróis mais “modernos” e adaptados aos novos tempos – tanto DC quanto a Marvel precisaram correr para se adaptar e manter as vendas. Como os heróis da Image representavam uma modernidade, mas não necessariamente qualidade das histórias, as duas maiores editoras tentaram se nivelar com a Image e acabaram dando origem a um período conturbado na história dos comics, onde o impacto visual se sobressaia às histórias e a qualidade dos comics caiu drasticamente. No caso da DC, que possuía em seus heróis mais conhecidos personagens criados nos anos 40, era difícil imaginar que esses heróis “antiquados” pudessem fazer frente a heróis mais modernos. Como a substituição de Barry Allen, morto em Crise Nas Infinitas Terras, por Wally West havia sido muito bem sucedida, a DC começou a acreditar que substituir seus personagens por versões mais “modernosas” era uma boa idéia, o que acarretou eventos como a morte do Superman, a substituição de Bruce Wayne por Azrael como um Batman muito mais violento, a transformação de Hal Jordan (Lanterna Verde) em um vilão e a subseqüente substituição do título para o inexperiente Kyle Rayner. Como era de se imaginar, a Mulher Maravilha não ficaria de fora dessa nova onda.

Após um arco de história em que as Amazonas ficaram presas num mundo demoníaco, Hipólita retornou com estranhas visões do futuro. Numa dessas visões, ela viu a Mulher Maravilha sendo morta violentamente. A fim de impedir que este destino terrível acometesse sua filha, Hipólita preparou um outro torneio para escolher uma nova Mulher Maravilha, mesmo com a reprovação de sua filha. O resultado foi a substituição de Diana por Ártemis, que tornou-se a Mulher Maravilha até ser morta cumprindo a visão de Hipólita. Após a morte de Ártemis, Diana retornou a ser a heroína.

Após Diana ficar sabendo da verdade sobre sua substituição, não perdoou sua mãe e deixou de falar com ela. Hipólita, por sua vez, devido à relação estremecida com sua filha e a finalmente ter se dado conta que mandara um inocente para a morte, decide por um auto-imposto exílio no mundo dos homens. Mais tarde, Hipólita ficou sabendo que sua filha estava em perigo, mas não conseguiu chegar a tempo de impedir que sua filha fosse morta. Por conta disso Hipólita, arrasada, mas sentindo muito remorso pela morte da filha, decide tomar o manto de Mulher Maravilha e passar a atuar no lugar da heroína.

Esse período de histórias foi importante para acertar uma série de pontas soltas da história da Mulher Maravilha que haviam ficado sem resposta até então. Durante uma aventura em que Hipólita, já atuando como Mulher Maravilha, volta no tempo, ela passa um período atuando ao lado da Sociedade da Justiça na Segunda Guerra Mundial. Isso resolveu o problema da atuação da heroína na Segunda Guerra, e também voltou a vincular a origem de Donna Troy (que fora a Moça-Maravilha, mas agora se chamava Tróia) à de Diana, revelando que a jovem heroína havia se inspirado na Mulher Maravilha dos anos 40 (que era Hipólita quando viajou no tempo).

Durante o período em que esteve morta, Diana recebeu o dom da divindade pelos Deuses Gregos, tornando-se a deusa da verdade, por seu trabalho na Terra e sua devoção às causas nobres. Eventualmente, Diana desistiu de sua divindade e voltou para o mundo dos homens, retomando o manto de Mulher Maravilha.

Após essa fase, muitos outros autores passaram pela revista da Mulher Maravilha, mas um que merece destaque é Greg Rucka. Mesmo seguindo de onde os outros autores haviam parado, Rucka renovou a Mulher Maravilha, mantendo seu conceito de Embaixadora da Paz e sua associação com os deuses, mas utilizando-os dentro de um contexto moderno. Agora víamos a tecnologia, computadores e internet junto com Mitologia Egípcia e Grega, por exemplo. Além disso, Temyschira passou a ser “parte” do mundo dos homens, ao que as Amazonas foram incumbidas de educarem e passarem para os humanos a sabedoria das amazonas. Foi uma fase muito elogiada e até hoje lembrada pelos fãs como uma grande fase da personagem.

Mas o pior ainda estava por vir.


Epílogo: Curiosidades
- O período em que Diana foi substituída por Ártemis foi desenhada pelo brasileiro Marcelo Deodato;
- A morte de Diana e sua subseqüente transformação em Deusa da Verdade não foi publicada no Brasil, assim como sua substituição por Hipólita. Como Hipólita tomou o lugar de Diana na Liga da Justiça, e esta revista era publicada aqui, a editora brasileira da época (Abril) safadamente alterou textos e cortou páginas de várias histórias a fim de fazer parecer que Diana tinha apenas mudado um pouco o uniforme;


A seguir: A mulher moderna dos novos tempos

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Princesa Amazona – Parte 3

No post anterior:
Após ser acusada de lesbianismo, fetichismo e sadomasoquismo, a vida da Mulher Maravilha tem uma grande reviravolta quando a heroína renuncia seus poderes pelo amado Steve Trevor e deixa de ser a Mulher Maravilha que conhecíamos. Graças às suas fãs do mundo real, e a série de TV que a tornou ainda mais popular, Diana pôde finalmente voltar a ser a Mulher Maravilha que sempre conhecemos.



“Enquanto isso, na banda desenhada...” é uma seção que traça um paralelo entre o universo real e o mundo dos quadrinhos, analisando como as duas realidades afetam uma à outra, trazendo informação e estimulando a reflexão acerca dessa 8ª arte.


Novas – e velhas – Mulheres Maravilha

Os anos 80 foram os anos da revolução dentro da indústria dos quadrinhos, por vários motivos. Foi a época em que os quadrinhos amadureceram, trazendo personagens mais interessantes, personalidades mais verossímeis e um mundo menos bidimensional. Foi através desse amadurecimento das histórias em quadrinhos que os autores e editoras começaram a enfrentar o Comics Code Authority e esse fantasma ditatorial que pairava sobre a indústria começava a perder sua força.

Nesta época, Mulher Maravilha havia retornado às suas raízes, voltando a ser a heroína que os fãs conheciam. Mas a tranqüilidade de Diana não duraria muito tempo.

Em 1985 todos os universos estava ameaçados. Tudo isso por conta de uma névoa branca, chamada de “Entropia”, capaz de destruir universos inteiros e que estava chegando aos principais universos da DC Comics. Essa foi a base de Crise nas Infinitas Terras, megassaga em 12 edições (no Brasil ela foi espalhada entre os títulos mensais da época), que visava ser um épico de proporções nunca antes vistas nos quadrinhos, além de uma forma de reiniciar o universo DC, que se encontrava num período difícil e confuso com tantas terras e versões diferentes de seus personagens. A saga foi uma forma de remodelar as histórias da editora, fazendo as histórias da DC acontecerem em um único universo coeso onde todos os personagens coexistiriam.

Assim, após a saga, heróis menos populares poderiam ser apagados da existência, heróis com baixas vendas poderiam ter mortes épicas e heróis clássicos poderiam ser reformulados para os novos tempos, já que muitos (como Superman, Mulher Maravilha e Capitão Marvel) eram considerados “antiquados”. Enquanto Flash se sacrificava para salvar o mundo para posteriormente ser substituído por seu pupilo, Wally West, a Mulher Maravilha também encarava a morte, mas de uma forma diferente. Ao invés de uma morte “normal”, Diana simplesmente desapareceu sem deixar vestígios para, no desfecho da saga, descobrirmos que a heroína fora arremessada de volta no tempo, retrocedendo até voltar a ser barro novamente. Isso foi o gancho que a DC precisava para reformular a heroína, e torná-la a única Mulher Maravilha do Universo DC.

Então, sob o comando de George Pérez (argumento e arte), a história da Mulher Maravilha foi reformulada. Apesar de manter os principais aspectos de sua origem básica, havia algumas diferenças significativas que davam maior verossimilhança às histórias, que passaram a ser calcadas especificamente na Mitologia Grega. Além disso, a história passou a tratar de assuntos mais maduros e com conseqüências mais profundas.

Nesta nova versão, as amazonas foram criadas pelos deuses gregos a partir das almas das mulheres que foram mortas pelas mãos dos homens. Hipólita foi a primeira Amazona a nascer, e por isso foi considerada rainha das amazonas. Morta por seu próprio companheiro, Hipólita carregava uma criança em seu ventre quando perdeu a vida. A alma dessa criança foi, milhares de anos depois (vale lembrar que as amazonas são imortais) trazida de volta para Hipólita como um presente dos deuses. Então, hipólita criou a partir do barro uma criança, que os deuses deram a alma da criança que não nasceu, nascendo assim Diana. Nesta versão da história, Steve Trevor não cai em Temyscira. Ao invés disso, descobre-se que os deuses criaram Diana sabendo que, quando ela atingisse a idade adulta, ela teria de se aventurar pelo mundo dos homens para derrotar Ares, que nesse período estava levando os homens para uma guerra que destruiria o mundo. Usando um uniforme que carregava as cores da bandeira americana (com quem as amazonas tiveram contato no passado – ver curiosidades), Diana partiu para o mundo dos homens a fim de derrotar Ares. Sem adotar uma identidade secreta, Diana ficou no mundo dos homens como uma embaixadora de Temyscira, tentando levar a sabedoria da Ilha Paraíso para o nosso mundo. Esse primeiro arco de histórias do George Pérez é considerado uma das melhores histórias da Mulher Maravilha e até hoje é referência para as histórias subseqüentes, tanto nos quadrinhos quanto em outras mídias.

Dentro do universo DC, as mudanças também foram significativas. Mulher Maravilha não havia mais surgido na era de heróis iniciada com Superman e Batman e, consequentemente, nunca chegou a fazer parte da Liga da Justiça. A heroína chegou ao mundo dos homens e passou a fazer parte do universo DC apenas durante o crossover Lendas, onde os principais heróis da editora já estavam estabelecidos. Inicialmente, talvez tenha parecido uma boa idéia para a editora, mas essas pequenas mudanças passaram a dar diversos problemas. Primeiro porque a Mulher Maravilha fez parte da Sociedade da Justiça (equipe formada antes da Liga da Justiça) na Segunda Guerra Mundial. Se surgiu apenas no fim dos anos 80, como explicar as aparições dela numa equipe que ainda existia no universo DC? Outro grande problema foi a Moça-Maravilha, que inicialmente havia surgido bem depois da Mulher Maravilha mas agora, tendo sua própria vida junto aos Novos Titãs e não tendo sido parte da reformulação feita pelo George Pérez, como explicar que uma menina chamada Moça Maravilha existia antes da Mulher Maravilha? Em quem ela havia se inspirado, se nunca houve uma Mulher Maravilha antes dela?

Essas e outras questões começaram a complicar a vida da heroína, e só seriam corrigidas muitos anos depois.

Epílogo: Curiosidades
- A reformulação da Mulher Maravilha contava originalmente com Greg Potter nos roteiros, mas ele acabou deixando a DC após escrever a primeira edição e, para a personagem não ficar a ver navios, George Pérez assumiu o título, sendo de vez em quando ajudado por outros roteiristas;
- George Pérez deu uma explicação plausível para o uniforme da Mulher Maravilha ser tão “americanizado”. Na história, durante a segunda Guerra Mundial, a mãe de Steve Trevor, oficial das forças armadas dos EUA, acabou caindo na Ilha Paraíso (remetendo à história original da Mulher Maravlha), onde acabou se envolvendo na batalha das amazonas com uma criatura demoníaca. Apesar de ter morrido, o sacrifício dela permitiu que as amazonas vencessem a criatura. Admiradas pelo sacrifício de uma desconhecida, as amazonas desenvolveram uma armadura em homenagem à ela, feita baseada nas cores e elementos da bandeira que a mulher carregava em suas roupas (no caso, a bandeira americana). Essa armadura seria posteriormente o uniforme de Diana, usado por ela em respeito à mãe de Steve Trevor e como forma de facilitar sua estada no mundo dos homens (do qual não sabiam que era dividido em países e nações diferentes);
- A Mulher Maravilha foi “substituída” pela Canário Negro na nova origem da Liga da Justiça, que também não incluía Superman e Batman (embora eles tivessem ajudado a liga em diversas ocasiões);
- As discrepâncias entre a reformulação da Mulher Maravilha e as origens da Moça-Maravilha deram muito pano pra manga e tiveram que ser reformuladas também. Na clássica história “Quem é a Moça Maravilha”, Donna Troy (a Moça Maravilha) descobre ser um dos 12 órfãos ao redor do universo salvos pelos Titãs mitológicos para serem as “Sementes dos Titãs”, onde ganhariam poderes e se tornariam seus descendentes. Dessa forma, a história da Moça Maravilha se distanciaria um pouco da origem da Mulher Maravilha, mas voltaria a ser reformulada futuramente;
- A Mulher Maravilha e Steve Trevor originais, da Era de Ouro, ao invés de serem apagados da existência como muitos personagens da Terra 2, foram aceitos pelos Deuses Gregos no Olimpo, onde passaram a viver pela eternidade.

A seguir: As Mulheres Maravilha do passado, presente e futuro.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Princesa Amazona - Parte 2

No post anterior:
Uma nova personagem é criada para representar a força feminina nos quadrinhos: A Mulher Maravilha. Criada na Ilha Paraíso, uma ilha só de mulheres, Mulher Maravilha vai para o “mundo dos homens” com a missão de ajudá-los a enfrentar a crescente ameaça nazista, colocando assim seu nome no hall dos maiores heróis de quadrinhos.

“Enquanto isso, na banda desenhada...” é uma seção que traça um paralelo entre o universo real e o mundo dos quadrinhos, analisando como as duas realidades afetam uma à outra, trazendo informação e estimulando a reflexão acerca dessa 8ª arte.


Um novo tipo de Mulher Maravilha


Quando os anos 50 começaram, a Mulher Maravilha carecia de boas histórias. Com seu autor e criador falecido desde 1947, nenhum escritor conseguiu segurar as pontas e manter a personagem relevante, nem com histórias interessantes. Além disso, o livro “Sedução do Inocente”, de Fredric Wertham, responsável pela criação da comissão política que levou a instituição do Comics Code Authority e levou a “ditadura” para as histórias em quadrinhos discorria longamente sobre o caráter “homossexual, fetichista e sadomasoquista” que permeava as histórias da heroína. Apesar de ter sido um período em que toda a indústria de quadrinhos sofreu com a repressão, a Mulher Maravilha foi uma das que mais esteve nos holofotes, pois era uma das mais citadas no livro de Wertham (mais sobre esse assunto aqui, aqui e aqui) Mas a Era de Prata vinha chegando e, quando muitos heróis foram reformulados para os novos tempos, a Mulher Maravilha não ficou de fora.

Então no fim dos anos 50, passando pelos anos 60, Mulher Maravilha sofreria uma reformulação que mudaria alguns conceitos de sua origem. Agora Diana era uma criança, nascida do barro e abençoada pelos deuses com diversas habilidades, sendo “bela como Afrodite, sábia como Atena, ágil como Mercúrio e forte como Hercules”. Além disso, possuía agora profundo conhecimento científico e sabia falar qualquer língua conhecida pelo homem e além (sabia falar até Marciano!). Era um dos poucos heróis da DC que não tiveram uma vulnerabilidade específica agregada á ela (Como Superman passou a ter a Kriponita, Lanterna Verde a cor amarela e Aquaman o tempo que podia ficar fora d’água), embora dependendo da história, algum tipo de vulnerabilidade sempre era criada, ainda que momentaneamente. Também passou a ter sua própria sidekick (parceiro-mirim), assim como todos os personagens da época, então a Moça-Maravilha entrou em cena, fazendo parte das histórias da amazona.

Mas a década que mais reservaria mudanças surpreendentes na personagem seria os anos 70. Na verdade, apenas uma mudança, mas tão significativa que basicamente reinventou a personagem – para o bem ou para o mal.

Buscando histórias mais realistas, face ao grande crescimento da Marvel Comics no mercado e do sucesso de personagens mais “humanos” como Homem Aranha, X-men, Demolidor e Jusiceiro, e inspirado pela série de TV britânica “Os vingadores” (não confundir com o supergrupo da Marvel), cuja protagonista era uma espiã fatal, a DC reinventou completamente a história da Mulher Maravilha.

Ao renunciar seus poderes para ficar no mundo dos homens - uma vez que as Amazonas estavam indo definitivamente para outra dimensão - a fim de ajudar Steve Trevor, que na época era falsamente acusado de vários crimes, Diana passa a atuar apenas sob o nome de Diana Prince, adota um mentor Chinês, I Ching (nome "originalíssimo”). Sob tutela de I Ching, Diana aprendeu artes marciais e a manejar armas, e passou a usar um uniforme radicalmente diferente e a combater o crime e a enfrentar aventuras de diversos gêneros, que iam de espionagem à mitologia. Mas os editores estavam na verdade interessados em limar toda e qualquer referência à velha vida da Mulher Maravilha, evitando lembrar eventos passados e inclusive matando Seve Trevor.

Mas esta mudança radical, apesar de alardeada e bastante incentivada pela DC não duraria muito tempo. Em 1973, a personagem estava de volta ás suas origens, em grande parte graças à Gloria Steinem, famosa jornalista americana que, revoltada por ver a personagem com a qual cresceu lendo descaracterizada, colocou a heroína com seu uniforme original na capa da revista feminista Ms, uma revista de grande circulação nacional. Na verdade, não era exatamente o uniforme original, pois possuía algumas sutis diferenças, mas a essência do uniforme estava ali.

Diana Prince voltou então a ser a Mulher Maravilha que os fãs conheciam, e então os anos 80 começaram com a difícil tarefa de reintegrar todos os elementos originais da Mulher Maravilha às histórias da personagem. Sob a tutela de Gerry Conway, Steve Trevor estava de volta, mais precisamente uma versão de outro universo, cujo avião caiu na Ilha Paraíso da realidade “oficial”, reencenando o acidente original da origem da heroína e os dois voltaram a trabalhar para a inteligência militar americana.

Mas muito mais coisas aconteceriam com a personagem durante os anos 80, incluindo a mais celebrada fase, surgida a partir da “morte” da Mulher Maravilha


Epílogo: Curiosidades
- Lynda Carter imortalizou o visual da personagem quando protagonizou uma série de TV da heroína nos anos 70. Até hoje ela é considerada tão insubstituível quanto Christopher Reeve foi para o Superman;



- Antes da Mulher Maravilha, A Moça-Maravilha teve uma adaptação para a TV. A Filmation desenvolveu nos anos 60 um desenho animado da Turma Titã (equipe composta pelos sidekicks dos heróis), com segmento solo de vários personagens, incluindo a Moça Maravilha;



- Em 1974 um filme para TV foi produzido inspirado na fase sem poderes da Mulher Maravilha. Estrelada por Cathy Lee Crosby, o telefilme mostrava a personagem como uma superespiã sem poderes cujo uniforme era um amálgama de seu uniforme clássico com o uniforme da versão sem poderes. O telefilme fez sucesso, mas o estúdio preferiu investir numa série com a versão mais clássica da personagem. Pouco tempo depois, estreava a série protagonizada por Lynda Carter;



- Assim como aconteceu com virtualmente todos os personagens da DC na época, a versão da Era de Ouro da Mulher Maravilha foi "transferida" para a Terra-2, enquanto a versão da Era de Prata era da Terra-1. Mais tarde foi incluído na história da Mulher Maravilha “original” que ela casou com Steve Trevor e teve uma filha, que futuramente se tornaria a heroína Fúria;

- Antes da famosa série de TV e do telefilme dela como espiã, foi produzido em 1967 um vídeo apresentativo de uma série inspirada na série de TV do Batman, que fazia muito sucesso na época, voltando-se mais para a comédia do que para a aventura e estrelado por Linda Harrison. Mas a série não foi aprovado (ainda bem);





A seguir: Novas – e velhas – Mulheres Maravilha

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Princesa Amazona - Parte 1

No post anterior:
Criado pela necessidade e diretamente ligado à guerra fria, o Homem de Ferro sempre foi um personagem não tão famoso quanto outros da Marvel, mas que passou por muitas fases que fizeram a diferença nos comics e que merece figurar entre os grandes personagens de quadrinhos.




A mulher moderna dos velhos tempos

Ao anos 40 foram bastante promissores para os quadrinhos. Com o sucesso estrondoso de Superman, Batman, Namor, Capitão Marvel e Flash, os comics se encontravam em uma era de ouro onde não havia limites para a imaginação. Mas ainda faltava uma coisa: Um personagem feminino que fosse tão icônico para as mulheres quanto Superman era para os homens.

Em 1940, o psicólogo e inventor (sim, inventor) Willian Moulton Marston deu uma entrevista à estudante Olivia Byrne intitulada “Não ria dos comics”, onde descrevia o grande potencial educacional das histórias em quadrinhos. O artigo chamou a atenção de Max Gaines, que contratou Moulton como consultor educacional da National Periodics e All-American Publications (que futuramente se tornariam a DC Comics), e foi nesse período que o autor aproveitou para criar um novo super-herói. Originalmente, Moulton queria criar um super-herói que salvasse o mundo não apenas com os punhos, mas com amor. Por sugestão de sua esposa, fez desse personagem uma mulher e assim surgia a Mulher-Maravilha.

Publicada originalmente na revista All-Star Comics nº 8, a história mostrava um mundo totalmente dominado por mulheres fortes e independentes, a Ilha Paraíso, onde Diana crescera filha de Hipólita, a rainha das amazonas. Quando o avião do oficial de Inteligência americano Steve Trevor cai na ilha, a deusa Afrodite diz para as amazonas que é chegada a hora delas viajarem para o “mundo dos homens” e ajudá-los a enfrentar os perigos do Nazismo. Assim, uma competição é realizada para decidir qual das amazonas iria escoltar o militar de volta para o mundo dos homens e ajudaria os americanos na Guerra. Proibida de participar por sua mãe, Diana comparece à competição com sua identidade escondida, sendo a vencedora. Quando sua mãe descobre que sua filha foi quem ganhou a competição, não tem outra opção a não ser seguir as regras e mandar sua filha para a missão. Assim, Diana foi para o mundo dos homens, onde atuou sob a identidade secreta de Diana Prince, enfermeira das Forças Armadas americanas

Ao ser publicada, o autor explicou que a personagem era uma propaganda psicológica de um novo tipo de mulher que, segundo ele próprio, deveria “dominar o mundo”. Inclusive, o autor acreditava que as mulheres eram, de fato, superiores aos homens e que deveriam ser retratadas como tal de agora em diante.

A grande maioria dos vilões que a Mulher Maravilha enfrentara em seus primeiros anos eram relacionados aos nazistas, uma vez que essa era a ameaça que ela tinha sido enviada para ajudar os homens a enfrentar, mas as histórias também revelaram a vilania de deuses como Ares, além de diversos asseclas e seres criados/enviados por eles. Entre as poucas exceções de vilões que não eram relacionados aos nazistas nem a mitologia Greco-romana estavam Cheetah (Conhecida aqui como Mulher Leopardo), uma atriz com dupla personalidade e Dr. Psycho, um anão com poderes psíquicos (!). Mulher Maravilha se tornou um sucesso imediato e logo foi colocada junto aos grandes super-heróis da época.

Epílogo: Curiosidades
- William Moulton Marston é mais conhecido por ter inventado o polígrafo (mais popularmente conhecido como detector de mentiras);
- A inspiração para o “Laço da Verdade” da heroína, que força qualquer um a dizer a verdade, veio da invenção do autor;
- Nos primeiros anos, Marston assinava as histórias da Mulher Maravilha sob o codinome de Charles Moulton;
- A Mulher Maravilha, ao contrário do que muita gente pensa, não foi a primeira super-heróina dos quadrinhos. Esta posição vai para Fantomah, Black Widow e Invisible Scarlet O'Neil, todas criadas em 1940;
- Willian Moulton Marston era devotado às mulheres. De fato, gostava tanto delas que vivia uma relação poligâmica com Elizabeth Holloway Marston e Olivia Byrne;
- Superman e Batman, Mulher Maravilha são os únicos personagens da DC Comics publicados (nos EUA) continuamente desde suas criações, sem interrupções (com exceção de um brevíssimo hiato em 1986).


A seguir: Um novo tipo de Mulher Maravilha