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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Magia da Realidade – Como Sabemos o que é verdade

“Quero mostrar a você que o mundo real, como é entendido cientificamente, tem sua própria magia. Eu a chamo de magia poética, uma beleza inspiradora que é ainda mais mágica porque é real e podemos compreender como funciona. Em comparação à verdadeira beleza e magia do mundo real, o sobrenatural e os truques de palco parecem vulgares e sem graça. A magia da realidade não é sobrenatural, não é um truque. É absolutamente fascinante. Fascinante e real. Fascinante porque é real.”

É comum que as tradições humanas, com o tempo, acabem se apropriando de certos conceitos e por muitas vezes distorcendo-os ou usando-os sob outro contexto, que consolida-se no senso comum com um significado (às vezes completamente) diferente do que originalmente proposto.

Usemos como exemplo a linguagem. A palavra “espírito” vem do latim “spiritus”, que tem suas raízes também no grego e hebraico e significa, a rigor, “sopro, respiração, vigor”. Ou seja, originalmente, dizer que um ser vivo tem “espírito” era apenas dizer que este estava vivo. Talvez o caso mais conhecido popularmente seja a palavra “Lúcifer”, que significa “O portador da luz”, embora este título seja atribuído ao principal adversário do deus judaico-cristão. Se traçarmos um paralelo entre significados originais das palavras e o contexto em que elas são usadas hoje, vamos ver o quanto nós acabamos perdendo o sentido de certas coisas e, não raro, atribuindo a estes termos significados sobrenaturais e místicos que não lhe cabem.

Dito isso, podemos dizer que A Magia da Realidade, de Richard Dawkins, será provavelmente o caso de um livro cujo verdadeiro significado (no caso aqui uso arbitrariamente como sinônimo de “intenção”) será distorcido ou mal-interpretado. A começar pelo título, que usa a palavra “magia”, e que pode, já de cara, levar a críticas superficiais (aliás, a raiz etimológica da palavra magia vem do persa e quer dizer “sábio”). Depois porque, atualmente, quando se ouve falar em Richard Dawkins, lembramos apenas que ele é um militante pró-ateísmo. Ou seja, quem é crente terá uma rejeição automática às suas obras e quem não é o lerá com afinco. E acho que estes dois extremos tendem a perder partes importantes do que faz A Magia da Realidade ser tão bom.

Como estudante de Filosofia, acabo ficando em uma posição “privilegiada”, vamos dizer assim, de estar no “meio termo” entre ambas as correntes: a da fé e a da ciência. Digo privilegiada porque quando se olha as coisas de fora, fica muito mais fácil entender o que acontece e sugerir medidas eficientes de mudança. Explico.

O embate entre religião e ciência é antigo, mas compreensível. Quando a ciência surgiu, chegou com o pé na porta e dando soco na cara, sem pedir permissão ou perguntar se alguém estava interessado. E mudou tudo. Ainda hoje se discute o lugar da ciência e da religião, pelo fato de que, originalmente, era da religião a tarefa de explicar os acontecimentos e, por muito tempo, ela não teve concorrência neste quesito (a não ser outras religiões, mas todas dentro do mesmo processo). Quando a ciência chegou, ela foi muito mais eficiente em explicar a realidade, não só porque a explicação científica é mais detalhada, mas principalmente porque a “verdade” científica permite uma vantagem que a religião nunca teve: a de, a partir destes conhecimentos, prever eventos, controlá-los e, consequentemente, usá-los a nosso favor.

Só que a ciência é um instrumento, uma ferramenta e, como tal, é neutra. Por isso qualquer descoberta científica pode ser usada tanto para o “bem” quanto para o “mal”*. Ou seja, a ciência pode nos proporcionar muita coisa (e nos proporcionou, pois graças à ela temos aviões, smartphones, computadores e internet), mas nunca poderá dizer como usar um conhecimento. Isso é trabalho para outro tipo de ferramenta.**

Porque passei diversos parágrafos pisando em ovos e falando sobre o embate entre religião e ciência? Porque, para ler A Magia da Realidade, você terá que colocar de lado seu ponto de vista extremista a respeito do Dawkins (seja ele contra ou a favor) se quiser aproveitar a obra como um todo e evitar distorções da mensagem e do significado do livro.

A Magia da Realidade é descrito como um livro do Dawkins para crianças. Sinceramente, depois de ler a obra, considerei essa descrição bastante limitada. Isso porque A Magia da Realidade está longe de ser um “livrinho de ciências” do tipo que eu encontrava na época e que era criança, com passatempos, jogos e outras coisas. O livro de Dawkins não tem nada de infantil. O que ele faz é tentar usar uma linguagem mais simples para trazer a ciência para um público que não o compreende direito. E, neste ponto, pelo menos aqui no Brasil, as crianças são as que menos precisam desse livro.

A estrutura da obra é muito criativa e interessante: Cada capítulo é a resposta de uma pergunta (que é o título do capítulo), que explica cientificamente diversos aspectos da realidade, que vão desde quem foi a primeira pessoa, porque existem tantos animais, do que são feitas as coisas, porque existe noite e dia, inverno e verão e até se estamos sozinhos no universo. Cada capítulo inicia descrevendo mitos de diversas culturas e épocas a respeito daquele tema, que contrastam com a explicação científica.

É um livro bastante completo para quem conhece pouco de ciência, e tem um nível de detalhamento suficiente para suprir a curiosidade e tornar o conteúdo compreensível, mas ao mesmo tempo evita muitas tecnicalidades (especialmente as matemáticas, graças à Osíris – sou péssimo em matemática) que tornariam o conteúdo confuso e desinteressante. É verdade que, ainda assim, é bastante conteúdo (por isso eu recomendaria, se isso fosse dado a crianças, que elas lessem aos poucos para ir assimilando o conteúdo devagar), mas a forma como é descrito, pelo menos na maioria das vezes, deixa a leitura agradável.

Para quem é fã de quadrinhos (e também fã de ótimas ilustrações), há mais um motivo para adquirir A Magia da Realidade: a obra é ricamente ilustrada com fotos, fotomontagens e ilustrações de Dave Mckean, mais conhecido por ter ilustrado a Graphic Novel Asilo Arkham e pela parceria com Neil Gaiman em diversas de suas obras, incluindo Sandman. Posso dizer que as imagens são de encher os olhos e só por elas já valeria a pena ter o livro em mãos.

É claro que a intenção de Dawkins com A Magia da Realidade não é (tão) ingênua, a começar pelo subtítulo provocador ("como sabemos o que é verdade"). A obra busca também inspirar as crianças a verem a “magia” do conhecimento científico e do universo físico real, sem precisar apelar para crenças em superstições e mitos. Mas dizer que a obra é só isso seria simplificar demais o esforço que o autor tem para com a divulgação ciência, uma luta que vem de muito tempo e que já teve nomes como Carl Sagan em suas fileiras e hoje conta com o próprio Dawkins, Neil DeGrasse Tyson e muitos outros.

Ninguém em sã consciência discordaria que conhecimento não só é importante, como é fundamental para se mudar o mundo. Mas aí é que entra toda a discussão ao qual me aprofundei nos primeiros parágrafos dessa resenha, sobre religião e ciência: entenda A Magia da Realidade como um “manual de como as coisas funcionam na realidade”, e apenas isso. Afinal de contas, não há como negar a veracidade das informações ali contidas (até porque Dawkins deixa bem claro os muitos pontos onde a ciência não tem certeza ou onde ela não tem ideia da resposta). E deixem a religião de fora. Até porque, como eu já disse, a ciência é um instrumento e o conhecimento é neutro. Saber o que fazer com esse conhecimento requer um outro tipo de ferramenta, que nos ajude a distinguir o certo do errado e a discernir entre a melhor forma de se aproveitar uma descoberta. Esta poderia (e deveria) muito bem ser a tarefa da Religião. Não ir de encontro à ciência, mas complementá-la, preparando as pessoas para aprenderem a lidar com o conhecimento. Mas, para que isso acontecesse, seria importante que ambas parassem de tentar abraçar áreas nas quais não estão aptas a lidar e se ater às atribuições que lhes cabem: Uma a interpretar e explicar a realidade, e a outra a nos ajudar a entender o que fazer com esse conhecimento.

Talvez um dia isso seja possível. Por enquanto, recomendo A Magia da Realidade, seja para crianças, adolescentes ou adultos, e tanto para quem já conhece a ciência quanto para quem quer conhecer, por mostrar o quanto ela pode ser interessante e inspiradora. O livro é meio salgado, confesso, cerca de R$ 54,00. Mas vale cada centavo, especialmente se você tiver filhos e espera que um dia eles se interessem pelo mágico mundo da ciência.



*Coloquei as palavras “bem” e “mal” entre parênteses porque as considero relativas demais para se colocar como grandezas objetivas.
**A Filosofia possui uma disciplina para tratar disso, a ética, mas decidi deixar este assunto de lado.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Deus, um Delírio

Uaréview
Por Rafael Rodrigues


"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"


O título deste post é provocativo, eu sei. Mas não podia ser diferente, pois é o título de um livro ainda mais provocativo, o que torna esta resenha, além de também provocativa, talvez um pouco controversa. Mas não tem como escapar: É exatamente disso que se trata Deus, um Delírio.


Falar sobre religião, não importa dentro de que grupo (pode ser de pessoas de baixa renda que não tiveram educação adequada ou pessoas cultas que estudaram nas melhores universidades do mundo), é sempre pisar em ovos. Isso porque, muito embora tenhamos evoluído para perceber os mitos antigos como alegorias para as explicações de mundo às quais não tínhamos capacidade de entender e saibamos disso por fato, é muito difícil para as pessoas não levarem qualquer questionamento religioso para o lado pessoal. Talvez seja porque Deus é uma resposta fácil aos questionamentos humanos, o que deve agradar a muitos que não gostam de pensar; para outros, pode ser um sentimento mais profundo e incontestável, e ainda podemos contar uma parcela significativa de pessoas que entendem o conceito de Deus em termos científicos – afinal de contas, deixando de lado o contexto religioso, a existência de um criador para o universo é uma hipótese a ser considerada, independente dela ser mais ou menos provável.

Falar sobre religião na internet então, que conta com uma infinidade de pessoas que, pelo simples fatos de poder esconder suas identidades atrás de uma tela de computador, ganham coragem para desferir os mais variados tipos de impropérios sem nem ao menos tentar interpretar o que foi dito, é uma tarefa de certa forma ingrata. Apesar de eu ter tido a sorte de contar com leitores e comentaristas, dentre teístas e não teístas, coerentes e intelectualizados o suficiente para garantir uma ótima discussão na resenha de Nosso Lar, Pedro de Biasi, no site Pipoca Combo, não teve a mesma sorte e sua resenha, que foi estritamente profissional e se concentrou na crítica ao filme, teve de encarar comentários atravessados de gente que provavelmente leu a crítica e não a interpretou corretamente. Ou talvez sejam pessoas que não estejam acostumadas a ser contrariadas, e entram em colapso quando isso acontece. Em qualquer um dos casos, fiquei chateado de ler uma boa e imparcial crítica sobre o filme, e ter de ler comentários de gente que aparentemente vêem qualquer coisa como uma ameaça à sua crença. Infelizmente, esse cenário é lugar-comum na internet (e na vida real também, mas isso não vem ao caso agora).

Estes dois parágrafos, acreditem, são apenas uma introdução para expressar os motivos que me levaram a fazer uma resenha deste livro que tem gerado polêmicas por onde passa e que chegou ao Brasil recentemente: Deus, um Delírio (The God Delusion, no original), de Richard Dawkins.

Para quem não conhece, Richard Dawkins é um biólogo (na verdade Zoólogo e Etólogo, mas estas delimitações são irrelevantes, embora dêem mais credibilidade) renomado e respeitado na comunidade científica. Autor de vários livros, entre os quais o Gene Egoísta (o mais famoso, que muitos leram, poucos entenderam e apenas alguns gatos pingados souberam interpretar adequadamente), ele é mais conhecido atualmente por sua postura crítica quanto às religiões. Em Deus, um Delírio, Dawkins traz uma visão bastante apurada da sociedade moderna e das nossas relações com as instituições e crenças religiosas fazendo diversas perguntas e propondo alternativas para as principais questões relativas ao tema: Deus Existe? A Evolução explica tudo? O cientista, que acredita na ciência como forma de conhecer a verdade, não é tão fundamentalista quanto o religioso, já que tem convicção do conhecimento científico como instrumento para se chegar à verdade? Sem Deus, o mundo não ficaria pior? É possível ser bom sem Deus? Hitler era ateu? Como é possível ser feliz sem Deus para dar um propósito à nossa vida?

São estas e várias outras indagações típicas que conduzem o livro que, sendo pró-ateísmo, obviamente contesta todas as respostas atribuídas à providência divina. Escrito com o objetivo óbvio de ser uma alternativa para aqueles que não simpatizam com nenhuma religião num mundo onde a maioria esmagadora possui convicção em alguma, Deus um Delírio tenta demonstrar que ser ateu não é vergonhoso quanto as pessoas gostam de apontar. Muito pelo contrário; é um atestado de sanidade.

O livro se foca principalmente nas três “principais” religiões monoteístas (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo), para demonstrar o quanto estas crenças são frágeis se colocadas à luz de uma análise crítica, ponderação racional e da relatividade histórico-social, evidenciando o quão absurdo o absolutismo religioso deveria soar hoje para a maioria das pessoas, embora isso não aconteça. Dawkins vai além e não critica apenas os fanáticos fundamentalistas, mas principalmente a religião propriamente dita, defendendo que o fundamentalismo é um subproduto direto da religião, seja ela moderada ou não. Além disso, defende a que as crianças sejam educadas para pensar por si mesmas e deixem de ser rotuladas de “crianças cristãs”, “crianças muçulmanas”, uma vez que elas não têm idade suficiente para saber no que acreditar (e que decidam suas inclinações, religiosas ou não, quando tiverem maturidade para isso).

Talvez alguns brasileiros com mais “mente aberta” (se é que esta terminologia cabe aqui) vão achar exagerados alguns pontos do livro, focando fortemente em temas como o criacionismo por exemplo. O motivo para isso é que o livro se baseia principalmente nas pesquisas, análises e experiência do autor em países de primeiro mundo, em especial a região da Grã-Bretanha e os EUA, que são países onde a religião é muito forte e inclusive é responsável por determinar muitas decisões políticas (tendo até hoje debates calorosos sobre o ensino ou não do criacionismo nas escolas, em detrimento da evolução pela seleção natural). Embora situações semelhantes tenham ocorrido recentemente durante as eleições por aqui, não é algo tão comum num país que tem o Espiritismo e a Umbanda como doutrinas praticadas por milhões de brasileiros e onde, pelo menos aparentemente, a liberdade religiosa ainda é muito maior do que países desenvolvidos que supostamente deveriam ser mais liberais.

Deus, um Delírio deve ser lido, então, como uma resposta à nações predominantemente religiosas e onde essa predominância interfere em questões sociais e pessoais relevantes, como aborto, homossexualidade, preconceito, educação, liberdade e amor à vida (que, abrindo um parêntese, Dawkins descreve bem no livro a visão reducionista da expressão pela maioria dos religiosos, onde amor à vida = amor à vida humana). E ainda consegue nos fazer ver os pontos positivos da religião, onde ela deveria se encaixar na sociedade como deveríamos aproveitá-la, além de uma descrição entusiasmada sobre as descobertas científicas e a complexidade da vida, numa verdadeira declaração de amor à ciência e à racionalidade humana.

Obviamente, um leitor mais crítico pode discordar de alguns pontos colocados pelo autor (como no meu caso), mas não é por isso que a obra perderá seu valor. Diferente das Escrituras, esse não é um livro que se suponha que deva ser levado como verdade absoluta, então não vai haver uma chuva de fogo e enxofre ou uma turba de fanáticos pela evolução querendo, literalmente, sua pele se você discordar racionalmente. Mas vai fazer com que você exercite o maior dom que o ser humano possui: Pensar.

Tiras geniais de Carlos Ruas no site Um Sábado Qualquer


No fim das contas, correndo o risco de parecer segregatório com os leitores, Deus, um Delírio não é recomendado para teístas, nem crentes de alguma religião. É sério. Sejamos realistas, fé é um tipo de convicção que, se você já é adulto e continua com ela, não vai desaparecer por conta de um livro. No máximo, vai fazer você ficar irritado com o autor, o que não vai adiantar nada, uma vez que ele é mais respeitado que você (inclusive por diversos teólogos). Em contrapartida, recomendo fortemente o livro para os que estão “em cima do muro”, aqueles que não se interessam por ou não se encaixam em nenhuma religião, que tem dúvidas sobre a existência de uma divindade ou que já descrêem dele, mas tem vergonha ou medo de admitir isso em uma sociedade predominantemente religiosa.

Deus, um Delírio foi lançado aqui pela Companhia das Letras ao preço de R$ 59,90 (Sim, é um valor meio alto, por isso mesmo não recomendei à todos os tipos de leitor, afinal gastar 60 paus num livro que vai contra o que você acredita não deve ser legal). Um livro impressionante, polêmico, provocador, inteligente e crítico, que merece ser lido. Mas tente não levar para o lado pessoal.

Em tempo: O livro é dedicado ao autor Douglas Adams, que escreveu O Guia do Mochileiro das Galáxias, de quem Hawkins era, além de amigo, grande admirador (e também o autor da frase no início deste post).

Nota: 9,13


Rafael não é ateu por convicção, por decepção ou por revelação, mas sim por conclusão.