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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Exorcismo de Anneliese Michel – Requiem

“Páre com isso! Não vai te deixar, porque nunca deixará seu corpo. Seu corpo só tem a você, e só a você”
Requiem





Tema Macabro





Existe um grande conflito não declarado (mas às vezes bem explícito) entre os que acreditam nas alegações sobrenaturais do caso de Anneliese Michel e os que descartam esta possibilidade, e este embate vai muito além do caso em si e tem muito mais raízes ideológicas. De um lado, temos um incidente que, caso realmente se pudesse provar os aspectos sobrenaturais e demoníacos, seria a evidência necessária para os descrentes, sem contar na validação da crença católica, que finalmente poderia renovar sua supremacia sobre as outras religiões e ganhar novamente os holofotes (de forma positiva, ao contrário do que tem acontecido nos últimos anos). Do outro, temos acadêmicos, médicos e psiquiatras que vêem tais crenças não só como um atraso no progresso da humanidade, mas como um perigo para a sociedade, uma vez que, alegam, em um caso como o de Anneliese Michel vemos o quão negligentes pessoas bastante racionais podem ser por conta de suas crenças e tradições. Richard Dawkins é o mais notório crítico dessas crenças, e convenhamos que hoje em dia é difícil ver com bons olhos a religião quando, por exemplo, uma jovem de 13 anos morre por não ser submetida a uma transfusão de sangue por conta de sua própria família, uma vez que a religião deles não permite tal prática.

Esta discussão, é claro, está longe de se encerrar, e o caso de Anneliese Michel é apenas um dos muitos aspectos deste conflito, que sinceramente não sei se algum dia terminará. De qualquer maneira, independente de qual posição esteja “certa” ou “errada”, só existe uma verdade que todos nós compartilhamos (ou pelo menos deveríamos compartilhar): o respeito ao ser humano e principalmente o respeito à vida, pois nenhum deus, nenhuma verdade é mais importante que isso. Nenhuma ciência, nem muito menos nenhuma religião. É pela vida que devemos lutar e é ela que devemos preservar a qualquer custo (mesmo que o custo seja descobrirmos que estivemos errados durante toda nossa vida)*.

Este conflito fé X ciência, apesar de ser de certa forma o tema do filme o Exorcismo de Emily Rose, é explorado de forma muito mais profunda e humana, sem apelos cinematográficos no filme alemão Requiem, de 2006.

Coincidentemente produzido na mesma época de O Exorcismo de Emily Rose (mas sem nenhuma relação com a produção deste), Requiem é um drama dirigido por Hans-Christian Schmid e conta a história de Michaela, desde sua admissão na faculdade, já com problemas de epilepsia, até o subsequente agravo de sua condição e sua percepção de que estava sendo possuída por demônios. Diferente de sua contraparte americana, o filme não explora o julgamento dos padres que se seguiu após a morte de Anneliese, focando-se na vida da jovem e nas dificuldades que enfrentou ao passar por estes problemas.



A história explora de forma mais realista o contexto clínico da personagem, mostrando sua tentativa de levar uma vida normal, tendo que lidar com sua doença em meio a uma família e uma comunidade enraizada nas tradições católicas. Com esse contexto, fica fácil entender porque Michaela (interpretada por Sandra Huller) atribuiu sua condição, que até então os médicos não conseguiam curar, a aspectos demoníacos. Não é um filme de terror, mas como se relaciona com o tema destes posts, não poderia ficar de fora.

Requiem é um filme difícil de se encontrar por aqui. Foi lançado em DVD pela Casablanca Filmes, mas não é fácil encontrar nem em locadoras, nem para venda, até onde pude constatar. E antes que pensem na facilidade de encontrar online: É possível, mas também é difícil. Mas a busca vale a pena, recomendo o filme como um dos mais tristes e interessantes que eu já assisti.

Espero que esta série de posts tenha servido para fazer os leitores refletirem. Não pretendo com isto mudar opinião de ninguém, muito menos provar a hipótese sobrenatural ou impor a hipótese clínica. Espero apenas que isso faça todos refletirem sobre o valor da vida e de como é bom estar vivo. E que nossos caminhos somos nós que escolhemos, seja isso bom ou ruim.

Curiosidades:
- Sandra Huller ganhou diversos prêmios por sua atuação impressionante como Michaela em Requiem;
- Não espere efeitos especiais típicos dos filmes americanos. O que impressiona o telespectador é justamente a narrativa crua e a filmagem quase documental, sem firulas e sem apelações (embora com cenas fortes).



*Desculpem a divagação exagerada, certos assuntos é difícil escrever com imparcialidade.

Na próxima Madrugada:
Um grupo de estudantes decide fazer terapia para lidar com seus medos. Mas mal sabem eles que não superá-los poderá ser mais perigoso do que jamais imaginariam. Na próxima semana, descubra o que é O Medo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A Sombra do Vampiro

"Se não é capturado pela lente da câmera, não existe"
A Sombra do Vampiro





Tema Macabro




Existe alguém que está entre os primeiros de qualquer lista de personagem de terror preferido: O Conde Drácula. Criado originalmente por Bram Stocker, utilizando-se de um personagem real (O conde Vlad Tepes da Romênia), Stocker desenvolveu um personagem que usava os mitos sobrenaturais dos vampiros e produziu o livro que até hoje é referência para qualquer autor de terror, e definiu o padrão dos vampiros como o conhecemos (não confunda com os vampiros adolescentes atuais, que tem mais de Anne Rice e menos de Bram Stocker). A história do Conde Drácula deu origem à diversas adaptações para outras mídias, especialmente para o cinema, onde a mais cultuada é a versão de 1931, estrelada por Bela Lugosi.



Mas o Conde Drácula, indiretamente, também foi o responsável por outra produção cinematográfica tão – ou mais – cultuada que sua adaptação para o cinema, e inclusive tendo surgido bem antes do clássico estrelado por Bela Lugosi: Nosferatu. Com o título original de Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens (Nosferatu, uma sinfonia de horrores) o filme, uma produção alemã dirigida por Friedrich Wilhelm "F. W." Murnau, contava a história de um agente imobiliário que atravessa os Montes Cárpatos para vender uma casa em sua vizinhança ao proprietário de um castelo no Mar Báltico, o excêntrico conde Graf Orlock - que é na verdade um milenar vampiro que, buscando por mais sangue, quer se mudar para a Alemanha e, ao chegar na propriedade que comprou, traz consigo grande terror e os habitantes acham que estão sendo vítimas da peste. A única que pode salvar as pessoas dos ataques do vampiro é Ellen, a esposa de Hutter, visto Orlock se sentir atraído por ela.



Considerado um dos maiores clássicos de terror, Nosferatu influenciou as gerações subseqüentes quase tanto quanto o conde Drácula e é uma produção indispensável na prateleira de qualquer fã do gênero. Mas Nosferatu também tem outro mérito: Servir de base para um dos filmes mais originais já feitos: A Sombra do Vampiro.

Originalidade não é lá algo muito comum nas produções de terror atuais, principalmente se envolvem os elementos clássicos como fantasmas, zumbis ou vampiros. Mas quando se trata de E. Elias Merhige, é difícil esperar menos do que algo muito diferente do normal. Merhige, o homem por trás do bizarro e surreal Begotten, conta em A Sombra do Vampiro a história por trás da produção de Nosferatu, mostrando como F.W. Murnau (interpretado magistralmente por John Malkvoich) decidiu colocar o ator Max Schreck (Willem Dafoe, sempre excelente) no papel que o imortalizou. Tem apenas um pequeno detalhe que as pessoas não poderiam ficar sabendo: que Schreck não estaria interpretando de fato, uma vez que é um vampiro de verdade.



A Sombra do Vampiro não poderia ser considerado um filme de terror na acepção mais comum da palavra. Na verdade, seria difícil incluir a película em algum gênero específico, pois qualquer um limitaria demais a experiência que é o filme. É um filme denso, perturbador, dramático, intenso, revelador. Tudo isso e mais. Por isso, me limito a não discorrer mais sobre para não entregar muita coisa da trama.

Vale a pena conferir A Sombra do Vampiro se você gosta de histórias diferentes e, para quem é fã de terror, é um filme tão indispensável quanto aquele que inspirou sua produção.

Curiosidades:
- Nosferatu é na verdade uma adaptação não autorizada do livro Drácula, de Bram Stocker. Como o estúdio não conseguiu obter os direitos para a produção (que na época não eram de domínio público), decidiu por mudar os nomes dos personagens e manter a história base que foi o filme que ficamos conhecendo;
- Existem duas refilmagens do clássico Nosferatu: A mais famosa, dirigida por Werner Herzog é Nosferatu The Vampyre, de 1979; o outro é Nosferatu - The First Vamypre, de 1998;
- No filme Batman – O Retorno, o personagem de Cristopher Walken tem o nome de Max Schreck, em homenagem ao ator que interpretou Nosferatu;
- A história de A Sombra do Vampiro é inspirada em lendas que surgiram ao redor do ator Max Schreck. Por conta de sua impressionante interpretação, o fato de continuar usando a maquiagem e mantendo os trejeitos do Nosferatu diversas vezes fora das câmeras, somado ao significado de seu sobrenome (Schreck em alemão é algo como susto, espanto), houve rumores de que ele era um vampiro de verdade;
- Outra das lendas dá conta de que Max Schreck era o nome fictício de um ator conhecido da época, que não queria ter seu nome vinculado eternamente ao personagem (lenda que hoje já foi desacreditada);
- A Sombra do Vampiro foi produzido pela Saturn Films, de Nicolas Cage;


Na próxima Madrugada:
Uma noite regada a bebidas, conversas e histórias macabras. Na próxima semana, visitamos um dos clássicos da literatura brasileira, Noite na Taverna.