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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Eles vivem

“Eles vivem. Nós dormimos” 


Não é de hoje que existe uma preocupação (ainda que, infelizmente, não venha acompanhada de alguma ação) sobre a possibilidade de nós, cidadãos comuns, estarmos sendo manipulados por algum pequeno grupo que se utiliza de técnicas escusas para controlar nosso comportamento, nossa mente e nos tornar robôs sem vontade própria. De fato, isso foi e ainda é tema de diversas histórias ao longo das eras. Não sei dizer quando este tipo de “paranoia” começou, mas talvez Francis Bacon e René Descartes tenham boa responsabilidade sobre isso. O primeiro sugeria que o ser humano reconhecia o mundo “filtrado” por vários aspectos da cultura e erros cognitivos, que nos impediam de ter uma real noção do que era a realidade. Já o segundo afirmou que sequer é possível dizer que conhecemos alguma realidade, já que não podemos dar certeza da existência de qualquer coisa além da nossa própria consciência.

São conceitos bem abstratos (e dependendo do ponto de vista, até absurdos) para quem conhece de forma superficial o pensamento destes dois filósofos. Mas a questão que permanece aqui é: como podemos saber que somo realmente livres, que tomamos as decisões por nós mesmos? Como podemos saber se não estamos sendo manipulados e tudo o que acreditamos não é uma mentira?

Não dá para dizer com certeza. E a abrangência cada vez maior do acesso à informação, que tanto nos liberta quanto nos aliena, apenas aumentam as dúvidas quanto à autonomia de nossa mente. Podemos pensar em diversas técnicas e maneiras supostamente usadas por quem quer que seja para manipular a sociedade, mas talvez a mais suja delas – se funcionar – seja a mensagem subliminar.

Para quem não sabe, mensagem subliminar é toda mensagem enviada por qualquer meio de comunicação que não é captada por nossa percepção consciente, mas que ainda assim é registrada no cérebro. Bem, até aí isso não é algo tão assustador, se pensarmos que grande parte (se não a maioria) dos dados que nossos sentidos recebem do mundo são subliminares (sons, cores, etc). O problema está quando os dados são mensagens inteligíveis para o cérebro que, quando as registra, pode acabar obedecendo estas mensagens, acreditando ser vontade da própria mente.

Existem evidências científicas de que nosso cérebro percebe e assimila mensagens subliminares, mas até hoje não foram encontradas evidências que demonstrem que elas de fato influenciam o ser humano e suas atitudes. De qualquer maneira, o ponto não é técnico, mas ético: funcionando ou não, o uso de mensagens subliminares já serve como uma tática baixa e desprezível por si só. Mas independente da eficiência das mensagens subliminares, é fato que boa parte dos países possuem legislação contra essa prática (no Brasil, no entanto, não há lei que regulamente o uso de mensagens subliminares, até onde eu sei) e diversas empresas ao longo das décadas foram acusadas, condenadas e multadas por propagandas contendo mensagens subliminares.

Agora imagine um mundo onde a mídia manipula as pessoas através das mensagens subliminares. Onde cada outdoor, cada comercial de TV, cada propaganda de rádio exibe, nas entrelinhas, mensagens que nosso cérebro assimila inconscientemente e que definem nossas atitudes e nos tornam robôs a serviço de uma pequena casta de seres acima da lei que controla tudo. Não é muito difícil imaginar isso, principalmente nos dias de hoje, onde temos protestos como os movimentos Ocuppy, e onde pesquisas científicas demonstram que todo o poder econômico mundial está concentrado em algumas poucas centenas de empresas multimilionárias. Mas fico pensando o quando essa perspectiva pareceria ficção científica há 30 anos atrás, algo fora da realidade e absurdo (assim como as teorias de Bacon e Descartes), pelo menos para o cidadão comum.




As histórias de terror, assim como qualquer gênero narrativo – e também qualquer forma de arte – acaba, inevitavelmente, como um reflexo de um contexto histórico. Muitas vezes este contexto permanece atemporal, mas outras vezes o conteúdo da narrativa torna o filme datado. Não é tão comum, no entanto, que uma obra passe a se tornar cada vez mais relevante com o passar do tempo. Para mim, este é exatamente o caso do filme “Eles Vivem”.

Dirigido por John Carpenter, “Eles Vivem” mistura crítica política e social com teorias de conspiração e estética de filmes B dos anos 50 para contar a história de John Nada, um trabalhador pobre que chega a Los Angeles e encontra trabalho num edifício em construção. Durante uma estranha operação repressiva, a polícia destrói um quarteirão inteiro do bairro miserável em que vive. Na confusão, Nada encontra óculos escuros aparentemente comuns, mas ao usá-los consegue enxergar horrendas criaturas alienígenas disfarçadas de seres humanos, bem como as mensagens subliminares que elas transmitem através da mídia em geral. Nada percebe que os invasores já estão controlando o planeta e, juntamente com seu companheiro de trabalho Frank, decide se engajar no movimento de resistência, que é perseguido como subversivo pela polícia.


Quem nunca ouviu falar de “Eles Vivem” pode ler a sinopse acima e pensar que é um filme atual, mas a película foi lançada no ano de 1988, ou seja, há cerca de 25 anos atrás. Compreensivelmente, o filme amargou baixa bilheteria e não foi muito entendido pelo público da época. Mas é impressionante como o filme se encaixa perfeitamente no contexto da sociedade atual, de consumo desenfreado, manipulação midiática e turbulência econômica. É claro que os efeitos especiais hoje estão bastante datados (até porque o filme também é uma homenagem aos filmes da década de 40/50) e a estrutura narrativa do John Carpenter, a exemplo de outro filme de terror oitentista, Criaturas Atrás das Paredes (de Wes Craven), é bem diferente da linearidade às vezes maçante e do ritmo enlatado dos dias de hoje. Mas é um filme altamente recomendado, tanto para os amantes do gênero de terror quanto para aqueles que gostam de algumas doses de crítica social.


No mês que vem, um tema de ficção científica bem interessante do qual já falamos no blog algumas vezes (teve até podcast sobre), mas que pode não ser exatamente "ficção".

Curiosidades:
- O filme é escrito e dirigido por John Carpenter, mas nos créditos do filme ele assinou com o pseudônimo de Frank Armitage;
- John Carpenter retirou o personagem John Nada da HQ Alien Encounters;
- A briga entre Nada e Frank no filme deveria ter apenas 20 segundos, mas os próprios atores decidiram por brigar de verdade quando fizessem a cena, evitando apenas socos nos rostos. John Carpenter ficou tão impressionado com a cena que decidiu por mantê-la intacta no filme.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

John Carpenter – Terror e além

“Além do limite de nossa visão, servindo-se de nós como alimento, assentando-se sobre nós, do nascimento à morte, são nossos donos!
Nossos donos! Eles nos têm! Eles nos controlam! Eles são nossos mestres!
Acorde! Eles estão em tudo sobre você! Em tudo ao seu redor!”

Eles Vivem





Tema Macabro:




Existem muitos autores que merecem ser citados por sua contribuição ao terror. Mas alguns deles não só contribuíram para o gênero como seria difícil imaginar muitas obras atuais sem a influência deles. Um destes autores é, sem dúvida, John Carpenter.

Nascido em 1948, John Carpenter é um cineasta completo. Roteirista, diretor, produtor, ator, editor e compositor, conhece todas as nuances, detalhes, possibilidades e limitações da mídia cinema. Talvez por isso conte em seu currículo com tantos filmes clássicos, cult e populares ao longo das décadas. Despontou logo com seu primeiro trabalho cinematográfico, o curta metragem The Resurrection of Broncho Billy, onde ele foi roteirista e compositor e que ganhou o Oscar de melhor curta-metragem em 1970; a partir daí suas produções, fossem escritas, dirigidas ou apenas produzidas por ele eram sinônimo de boas histórias – e eventualmente, bilheteria.



Os grandes autores de qualquer mídia são assim chamados justamente porque não se limitam à apenas um gênero. Assim como Richard Matheson e Stephen King, John Carpenter passa do drama à sátira, passando pelo sci-fi e, é claro, o terror. Entre os clássicos fora do gênero de terror podemos citar Starman – O Homem das Estrelas, Dark Star, Fuga de Nova York e sua sequência, Fuga de Los Angeles, Memórias de um Homem Invisível, o clássico da sessão da tarde Aventureiros do Bairro Proibido e o meu preferido, que apesar de não ser muito conhecido, gosto muito, Experimento Filadélfia.



Entre os filmes de terror do autor podemos destacar À Beira da Loucura (um dos meus preferidos), O Enigma do Outro Mundo, A Cidade dos Amaldiçoados, Eles Vivem, Christine, Vampiros e sempre esteve envolvido em vários filmes da clássica cinessérie que criou, Halloween (Embora ele tenha sido diretor e roteirista de apenas alguns deles).



Embora durante a década de 90 o autor tenha experimentado um declínio na popularidade de seus filmes (muitos deles fracassos de público e de crítica), John Carpenter merece ser lembrado por suas obras, seja por elas terem contribuído com o cinema, seja por ter criado padrões que até hoje geram inspiração e são utilizados por outros cineastas.


Curiosidades:
- John Carpenter compôs a trilha sonora de praticamente todos os filmes em que esteve envolvido. Uma de suas composições mais lembradas é a trilha de Halloween;
- Os filmes de John Carpenter têm como “assinatura” o uso minimalista de luminosidade e fotografia, além da utilização de câmeras estáticas.


Na próxima semana:
Entra em cena um dos monstros clássicos mais conhecidos pelos entusiastas do Terror, o Moderno Prometeu.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

À Beira da Loucura

É chegada a hora! Uma nova e aterrorizante realidade se abre diante de seus olhos e as mais terríveis criaturas chegam às portas da realidade trazendo os mais terríveis pesadelos! Real ou imaginário não faz diferença aqui, pois tudo acontece, por mais desesperador que seja!


Tema macabro:
Metallica – The Thing That Should Not Be




Desde que o cinema existe foram produzidos um sem número de filmes de terror, uns aterrorizantes, alguns ridículos e poucos inesquecíveis. E, desses poucos filmes de terror realmente inesquecíveis, falo sobre um que é muito pouco conhecido pelo público em geral, mas é um bom exemplo do “terror de verdade” que comentei no primeiro post. É o filme À Beira da Loucura.

Realizado por um dos mestres do cinema de Terror, John Carpenter, que nos deu entre outros a adaptação do livro de Stephen King, Christine e o clássico remake de Cidade dos Amaldiçoados, À beira da Loucura tem Sam Neil no papel principal e é um dos melhores exemplares do Terror de verdade.

À beira da Loucura começa quando o investigador de fraudes de seguro John Trent (Sam Neil) é atacado por um estranho que parece alucinado. O estranho acabara de ler um livro de Sutter Cane, famoso autor de terror, considerado o “novo Stephen King”. Logo, Trent é chamado pela editora que publica os livros de Cane para investigar o desaparecimento do autor, que sumiu deixando seu último livro inacabado. Trent aceita o trabalho, mesmo achando que se trata de algum golpe de marketing. A partir daí, as investigações de Trent o leva para o mundo dos livros de Sutter Cane, seus fãs e a uma série de estranhos e inexplicáveis eventos que não podem ser reais. E então o investigador embarca em uma jornada rumo aos mais surreais e assustadores sonhos tornados realidade.




Não pretendo estragar nenhum detalhe do filme contando spoilers, por isso a sinopse acima dá uma boa idéia do que se trata a história. O resto é melhor você ver por si mesmo. Isto é, se conseguir sobreviver até o fim do filme.

O filme consegue ser assustador, perturbador e impressionante pela atmosfera tensa que ele cria, além de brincar com as idéias de autores de terror se tornando realidade (ou não). O terror na história é totalmente psicológico, e é melhor não piscar quando for assistir esse filme, pois cada detalhe conta.

Além disso, o filme é uma grande homenagem à H.P. Lovecraft, pois apesar de não ser uma história baseada em nenhuma obra dele, o filme possui um sem número de referências ao autor: O título original do filme “In the Mouth of Madness (traduzindo literalmente, “Na boca da Loucura”), é um trocadilho com “In the Mount of Madness” (Nas Montanhas da Loucura), um dos mais famosos livros do autor. Além disso, todos os livros de Sutter Cane citados no filme possuem títulos semelhantes aos títulos dos livros de Lovecraft, assim como a própria narrativa emprega elementos do terror psicológico, uso de flashback e o tema da insanidade que são comuns na literatura do autor.

Infelizmente, o filme não foi bem recebido pela crítica e pelo público, pois, obviamente, já que era um terror “à moda Lovecraft”, não havia como ser bem assimilado pela grande massa. A crítica também não deu grandes notas ao filme, o que é uma pena, pois é um filme bastante subestimado e do qual não é dado o devido valor. Porém, para aqueles que querem conhecer o “terror de verdade” que tanto falo desde que iniciei esta coluna, o filme é uma ótima pedida. Mas veja com os olhos bem abertos, não desgrude os olhos da tela e, principalmente, não vá dormir logo depois.


Entrevista com John Carpenter sobre À beira da Loucura (Em inglês – mal ae, pessoal)





Curiosidade:
O Tema macabro deste post também é uma homenagem (minha e do Metallica) à H.P. Lovecraft...


Na Próxima Madrugada:
Eles criam pesadelos. Fewdio. Sem mais